Rosa Roque: a professora que transformou a música em património cultural angolano

A trajectória artística e o legado cultural da compositora e pedagoga Rosa Roque voltaram ao centro do debate cultural em Angola, durante uma tertúlia realizada no espaço Prova d’Art Miramar, no âmbito do projecto “Homenagens a Figuras da Cultura”, promovido em parceria com o Jornal Cultura.

O encontro integrou uma edição especial do Quintal do Diónisio, reunindo familiares, músicos, jornalistas e investigadores culturais para revisitar a obra e o percurso da artista no dia em que celebrou 73 anos de vida. No painel de reflexão estiveram nomes ligados à crítica e à investigação cultural como Luísa Fançony, Jomo Fortunato, Lito Graça, Miguel Pacheco e a cantora Gersy Pegado.

A homenagem integra um ciclo que já distinguiu figuras como Teta Lando, Massano Júnior e Amadeu Amorim, consolidando-se como um espaço de memória e reconhecimento das personalidades que ajudaram a moldar o panorama cultural do país.

Uma vida entre a educação e a música

Nascida a 4 de março de 1953, na província de Malanje, Rosa Ermelinda Roque dos Santos construiu uma carreira singular que une educação, música e intervenção cultural. Professora de profissão, transformou a música num instrumento pedagógico, aproximando gerações mais jovens das raízes culturais angolanas.

A artista tornou-se amplamente reconhecida como fundadora e mentora do emblemático grupo feminino As Gingas do Maculusso, criado na década de 1980. O conjunto desempenhou um papel fundamental na preservação e valorização de ritmos tradicionais, especialmente o Semba, ao mesmo tempo que projetou a força da mulher na música angolana.

Ao longo de mais de cinco décadas dedicadas à cultura, Rosa Roque construiu um repertório que dialoga entre o folclore e a música urbana, entre o português e o kimbundu, refletindo a diversidade sonora e linguística do país.

Reconhecimento nacional

Pelo seu contributo para o desenvolvimento das artes e da educação cultural, a compositora foi distinguida em 2020 com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, a mais alta distinção atribuída pelo Estado angolano no domínio cultural.

Mais recentemente, integrou também o grupo de personalidades condecoradas pelo Presidente João Lourenço no âmbito das celebrações dos 50 anos da Independência Nacional, reconhecimento que reforça o lugar que ocupa na história cultural contemporânea.

Memória viva da cultura angolana

No mês dedicado à celebração da mulher, a homenagem a Rosa Roque assume também um valor simbólico: o reconhecimento de uma geração de criadoras que ajudou a preservar e reinventar o património cultural angolano.

Mais do que compositora ou mentora artística, Rosa Roque permanece como uma referência de cidadania cultural, uma voz que defende a união dos artistas e a valorização das raízes africanas como caminho para afirmar a cultura angolana no mundo.

No universo da música, da educação e da memória colectiva, a “Mamã das Gingas” continua a ser uma ponte entre passado e futuro — um testemunho vivo de como a cultura pode educar, unir e inspirar novas gerações.