Duas propostas cénicas marcam a agenda cultural com narrativas intensas sobre identidade, emoção e realidade social angolana
“Monólogos da Vagina”: palco de denúncia, cura e afirmação feminina
A Casa das Artes, em Talatona, acolhe a 5.ª temporada de “Monólogos da Vagina” (2026), com apresentações hoje às 20h30, e domingo às 19h00.
Em cena, as actrizes Dicla Burity, Elsa Marques, Slávia dos Santos, Eliane Silva, Whitney Shikongo e Yolanda Viegas conduzem o público por uma travessia emocional que aborda temas como empoderamento, dor, violência, trauma e o corpo feminino.
Com produção de Sofia Buco, o espectáculo constrói-se a partir de histórias reais e simbólicas de mulheres, cruzando denúncia social, introspecção e expressão artística.
Uma obra global com impacto local
Da autoria da norte-americana Eve Ensler, a peça é reconhecida internacionalmente como uma das mais influentes do teatro contemporâneo, destacando-se pela coragem em abordar temas historicamente silenciados.
Cada monólogo emerge como um acto simultâneo de exposição e libertação, transformando o palco num espaço de escuta, partilha e consciencialização.
Em Angola, a adaptação pela Bucos Produções — activa desde 2018 — tem consolidado uma leitura sensível e contextualizada da obra, promovendo reflexões profundas sobre a condição da mulher na sociedade angolana.
Memória cénica e continuidade artística
Ao longo das temporadas, o espectáculo já contou com a participação de diversas figuras do panorama artístico nacional, entre elas Tânia Burity, Érica Chissapa, Petra Nascimento, Naed Branco, Karina Barbosa, Rossana Miranda e Conceição Diamante, reforçando o seu carácter colectivo e evolutivo.
“A Raiva”: juventude em cena e retrato da vida urbana
Paralelamente, o Auditório Pepetela, no Camões – Centro Cultural Português, recebe a peça “A Raiva”, hoje às 19h30 e amanhã às 18h30.
Interpretada por estudantes do curso de Teatro da Faculdade de Artes, a produção apresenta um olhar cru e sensível sobre o quotidiano de uma família humilde em Luanda.
O elenco integra Arlindo Fabião, Albertina Velhinho, Lengo Nkai, Flávio Francisco, Bilonga, Gueth Monteiro e Belmira Baltazar, que assume também a produção executiva. O texto é de Tony Frampênio, com encenação do mestre Dartónio.
Conflito, emoção e espelho social
Com uma abordagem directa e simbólica, “A Raiva” mergulha nas dinâmicas familiares, revelando tensões, afectos e desafios sociais que atravessam a realidade urbana.
Entre momentos de humor e confronto, a peça convida à reflexão sobre convivência, gestão emocional e resiliência, posicionando-se como um espelho das vivências contemporâneas.
Nota Editorial | PRESSdigi – Cultura & Arte
O teatro angolano reafirma-se como território de escuta e intervenção social. Obras como “Monólogos da Vagina” e “A Raiva” demonstram que o palco continua a ser um espaço vital para questionar estruturas, dar voz ao silenciado e provocar consciência colectiva.
Num tempo em que as transformações sociais exigem novos olhares, a arte cénica assume o papel de mediadora entre memória, identidade e mudança. Ao expor feridas e revelar emoções, o teatro não apenas entretém — educa, inquieta e transforma.
A presença crescente de narrativas femininas e juvenis no palco sinaliza uma evolução necessária: a democratização da palavra e a valorização das experiências plurais que compõem a sociedade angolana.

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