SOCIEDADE | ÁFRICA EM FOCO
Artista e activista angolano defende que fenómeno resulta de desigualdades económicas e falhas estruturais pós-apartheid
O músico, produtor cultural e activista angolano Tony Nguxi partilhou um testemunho profundo e reflexivo sobre as tensões sociais vividas na África do Sul envolvendo cidadãos estrangeiros africanos, defendendo que o fenómeno frequentemente classificado como “xenofobia” deve ser analisado a partir de uma perspectiva estrutural, económica e política.
Com base na sua experiência de mais de duas décadas naquele país, Tony Nguxi afirma que a realidade sul-africana é mais complexa do que uma simples rejeição cultural entre povos africanos, sustentando que as tensões actuais são consequência directa das desigualdades herdadas do apartheid e da fragilidade da redistribuição económica no período pós-libertação.
TESTEMUNHO DE QUEM VIVEU A TRANSFORMAÇÃO
Tony Nguxi revelou ter vivido na África do Sul entre Outubro de 1994 e 2015, período em que chegou ao país como refugiado e construiu uma trajectória marcada pela integração social, cultural e empresarial.
Durante os anos em Joanesburgo, trabalhou com a histórica editora Gallo Music, conviveu com referências como Miriam Makeba, Brenda Fassie, Hugh Masekela, Yvonne Chaka-Chaka e Lucky Dube, além de desenvolver actividades empresariais e radiofónicas.
Segundo o artista, durante grande parte da sua permanência no país nunca sofreu discriminação racial ou social, tendo vivido inclusive em zonas nobres de Sandton e Sunninghill, frequentando espaços de elite económica e cultural sul-africana.
O INÍCIO DA MUDANÇA
De acordo com Tony Nguxi, o ponto de viragem começou a tornar-se evidente no início dos anos 2000, quando passou a notar desconforto em determinados círculos económicos e sociais relativamente ao crescimento financeiro de estrangeiros africanos residentes na África do Sul.
O artista recorda um episódio marcante ocorrido durante um encontro social em Sandton, onde um cidadão sul-africano questionou como um estrangeiro chegado em 1994 já conseguira construir património significativo no país.
Para Tony Nguxi, aquele momento simbolizou o surgimento de um ressentimento económico silencioso, que posteriormente se expandiu das elites para sectores populares da sociedade.
UMA QUESTÃO ESTRUTURAL E NÃO CULTURAL
Na sua análise, Tony Nguxi considera que o problema não nasce da cultura sul-africana nem de uma rejeição natural aos africanos estrangeiros.
O activista entende que a violência e hostilidade observadas nos últimos anos derivam sobretudo de factores como:
- desigualdade económica persistente;
- concentração de riqueza;
- desemprego;
- frustração social acumulada;
- falhas na redistribuição pós-apartheid;
- competição por oportunidades nos sectores informais.
Segundo o mesmo, a transição política de 1994 trouxe liberdade institucional, mas não foi acompanhada por uma transformação económica suficientemente inclusiva para responder às expectativas das populações mais vulneráveis.
O PAPEL DAS ELITES E DA POLÍTICA
Tony Nguxi aponta igualmente responsabilidades políticas no agravamento da crise social, defendendo que parte das lideranças sul-africanas perdeu ligação directa com as comunidades populares após a consolidação do novo modelo democrático.
Na sua reflexão, o African National Congress (ANC), histórico movimento de libertação liderado por Nelson Mandela, acabou por priorizar estabilidade financeira internacional e acordos económicos globais, sem conseguir implementar uma redistribuição económica profunda.
O músico considera ainda que determinadas correntes mais radicais e comunitárias do movimento histórico sul-africano foram progressivamente afastadas do centro das decisões políticas.
ÁFRICA, IDENTIDADE E INTEGRAÇÃO REGIONAL
O testemunho de Tony Nguxi surge também como um apelo à reflexão continental sobre os desafios da integração africana, da mobilidade regional e da valorização da identidade comum entre povos africanos.
Num momento em que vários países do continente enfrentam desafios económicos, migratórios e sociais, o activista defende a necessidade de políticas africanas mais inclusivas, sustentáveis e orientadas para a cooperação regional.
Para o artista angolano, compreender as causas profundas destas tensões é essencial para evitar simplificações perigosas e fortalecer os laços históricos entre os povos africanos.
REFLEXÃO SOBRE O FUTURO AFRICANO
A leitura apresentada por Tony Nguxi reforça o debate sobre as consequências das desigualdades sociais no continente africano e sobre os impactos de modelos económicos que continuam a gerar exclusão mesmo após processos históricos de libertação política.
Entre memória, experiência pessoal e análise crítica, o depoimento transforma-se também numa reflexão sobre o futuro das relações africanas, da integração continental e da necessidade de se construir uma África mais equilibrada socialmente, economicamente sustentável e culturalmente unida.
Fonte: REDE NACIONAL
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao

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