SOCIEDADE | CULTURA ANGOLANA EM LUTO
Música instrumental angolana perde uma das suas maiores referências culturais e artísticas
A cultura angolana encontra-se de luto pela morte do músico, compositor e saxofonista António Manuel Fernandes, artisticamente conhecido como Nanuto, falecido ontem, 15 de Maio, em Lisboa, Portugal, aos 68 anos de idade.
Reconhecido como uma das maiores referências do saxofone em Angola e no universo da música africana contemporânea, Nanuto deixa um legado profundamente marcado pela valorização da música instrumental angolana, pela fusão de sonoridades africanas e pela projecção internacional da cultura nacional.
A notícia da sua morte gerou fortes manifestações de consternação entre músicos, produtores culturais, admiradores e diversas figuras da sociedade angolana e da diáspora africana.
UMA VIDA DEDICADA À MÚSICA
Nascido a 23 de Novembro de 1957, no Sambizanga, em Luanda, Nanuto iniciou o seu percurso artístico ainda muito jovem na Casa dos Rapazes de Luanda, onde começou por tocar bateria.
Aos nove anos de idade trocou a bateria pelo clarinete, instrumento que acabaria por abrir caminho para a sua paixão definitiva pelo saxofone, transformando-se posteriormente numa das figuras pioneiras da música instrumental angolana moderna.
Ao longo da sua trajectória, destacou-se pela ousadia de construir uma carreira solo num segmento ainda pouco explorado por músicos africanos da época.
UM EMBAIXADOR DA MÚSICA ANGOLANA
Nanuto estudou música em Portugal, Cuba, Estados Unidos da América e República Dominicana, experiências que contribuíram para moldar a riqueza técnica e estética da sua linguagem musical.
O artista percorreu diversos palcos internacionais, levando a identidade sonora angolana para festivais, concertos e projectos culturais em diferentes continentes.
A sua obra destacou-se pela fusão elegante entre semba, kilapanga, afrobeat, jazz, bossa nova e outras influências musicais africanas e internacionais.
UMA DISCOGRAFIA MARCANTE
Entre os trabalhos mais emblemáticos da carreira de Nanuto destacam-se os álbuns:
- Marés (1996);
- Kizofado (2000);
- Luandei (2005);
- Bisa (2009);
- Ximbika (2012);
- Gato Vijú (2021).
As suas composições tornaram-se referências importantes da música instrumental lusófona e africana, caracterizadas por forte identidade cultural, sofisticação melódica e profunda sensibilidade artística.
O lançamento do álbum Gato Vijú, em 2021, marcou o regresso discográfico do artista após cerca de uma década sem editar um novo trabalho autoral.
COLABORAÇÕES E INTERCÂMBIOS INTERNACIONAIS
Ao longo da sua carreira, Nanuto colaborou com importantes nomes da música africana, brasileira e internacional, consolidando-se como uma ponte cultural entre Angola, os PALOP e o mundo.
Entre os artistas com quem partilhou projectos e palcos destacam-se:
- Pablo Milanés;
- Luís Represas;
- Martinho da Vila;
- Simone;
- Daniela Mercury;
- Lecy Brandão.
A sua trajectória artística reforçou igualmente os laços culturais entre Angola, Portugal, Brasil e outros espaços da lusofonia africana.
LEGADO CULTURAL E IDENTIDADE SONORA
Mais do que músico, Nanuto tornou-se símbolo da sofisticação da música instrumental africana e da capacidade de Angola produzir artistas de dimensão internacional sem perder as raízes culturais nacionais.
O saxofonista soube transformar tradição e modernidade numa linguagem própria, elevando o semba e outras sonoridades angolanas a novos territórios estéticos.
A sua obra permanece como património artístico importante da memória musical angolana e africana.
ANGOLA CHORA UMA REFERÊNCIA DAS ARTES
A partida física de Nanuto representa uma perda significativa para a cultura nacional, sobretudo num momento em que Angola continua a afirmar a importância da preservação e valorização das suas referências artísticas históricas.
Entre melodias, improvisos e memórias sonoras, o nome de Nanuto permanecerá ligado à elegância do saxofone africano e à afirmação da música angolana no mundo.
Fonte: REDE NACIONAL | NEWS PRESS
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao

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