CULTURA & MEMÓRIA MUSICAL | CRÓNICAS DAS MINHAS CRÍTICAS
Entre memórias, improvisos e afectos, Angola despede-se de um dos mais autênticos mestres da música contemporânea nacional
O desaparecimento físico do músico angolano Nanuto, carinhosamente tratado por muitos como “Man Nanás”, continua a provocar fortes ondas de emoção no seio artístico e cultural angolano. Mais do que um instrumentista de excelência, Nanuto representava uma dimensão humana rara, marcada pela simplicidade, frontalidade, sabedoria e um profundo compromisso com a identidade musical angolana.
Figura incontornável da música nacional, o saxofonista conquistou respeito dentro e fora do país pela sua capacidade de fundir sonoridades tradicionais africanas com linguagens universais do jazz, da música acústica e das experimentações contemporâneas. O seu percurso tornou-se referência para várias gerações de músicos, artistas e amantes da cultura.
O homem por detrás do músico
Conhecido pelo trato fácil e pela convivência genuína, Nanuto mantinha uma postura firme diante das “politiquices” e das dinâmicas de bajulação que frequentemente cercam os meios artísticos. A sua autenticidade tornava-o uma figura admirada, respeitada e profundamente humana.
A sua presença em palco transcendia a técnica instrumental. Dos clarinetes aos saxofones, fazia ecoar emoções, ancestralidade e identidade, transformando cada apresentação num momento de comunhão cultural.
Para muitos colegas e admiradores, Nanuto não era apenas músico. Era mestre, conselheiro, companheiro de estrada e verdadeiro conquistador de almas.
Memórias vividas entre música e amizade
Em relato emotivo assinado por Kikalakalu Kiadibya, recordam-se encontros marcantes ao lado do artista, desde as noites memoráveis no emblemático Espaço Bahia, em Luanda, ao lado do mestre Paulo Flores, até às improvisadas sessões acústicas nas zonas periféricas da capital angolana.
Uma dessas memórias remonta a um encontro festivo realizado no bairro das “B’s”, onde músicos, amigos e produtores culturais protagonizaram um autêntico espectáculo de rua improvisado, carregado de semba, acústicos, improvisação e espírito colectivo.
Entre peixe frito, mufetes, pinchos, kissangua e boa disposição, artistas como Valú David, Bebé Duia, Pirika Duia, as irmãs Duia e o próprio Nanuto criaram um momento descrito como um dos maiores espectáculos acústicos espontâneos vividos nas últimas décadas em Luanda.
A experiência deixou marcas profundas em todos os presentes e consolidou laços humanos e artísticos que atravessaram o tempo.
Nanuto e a dignidade da música angolana
Ao longo da sua carreira, Nanuto levou consigo a bandeira angolana para vários palcos internacionais, tornando-se símbolo vivo da criatividade e da excelência musical do país.
A sua trajectória ajudou a elevar o nome de Angola nos circuitos culturais globais, sem nunca abandonar as raízes africanas e os ritmos da terra.
Para muitos observadores culturais, o legado de Nanuto merece reconhecimento institucional, documentação histórica e preservação permanente na memória colectiva nacional.
A sua obra e contributo artístico ultrapassam o entretenimento. Representam património cultural vivo.
Filipe Mukenga presta homenagem emocionada ao amigo de longa data
O músico e compositor Filipe Mukenga também reagiu ao falecimento de Nanuto com uma sentida mensagem pública dirigida aos amigos, fãs e ouvintes da Rádio Cultura Angola.
Mukenga destacou o impacto humano e artístico da perda, considerando Nanuto uma figura incontornável da música e cultura angolana.
“Nós vamos ficando mais pobres quando acontecem factos como a morte de Nanuto.”
O artista recordou igualmente o espírito solidário do saxofonista durante os anos em que ambos viveram em Lisboa, revelando que Nanuto o acolheu em sua casa numa fase importante da sua vida.
“Esta sua ajuda, muito oportuna, nunca poderei esquecer. Foi um gesto de verdadeiro amigo.”
Na despedida final, Filipe Mukenga resumiu o sentimento colectivo de uma geração marcada pela convivência artística e humana com Nanuto:
“Adeus para sempre, meu amigo.”
Um legado que permanece
Nanuto parte fisicamente, mas deixa viva uma herança artística profundamente ligada à memória afectiva, à resistência cultural e à valorização da música angolana.
O eco do seu saxofone continuará presente nas ruas, nos palcos, nos encontros culturais e nos corações daqueles que compreenderam a dimensão humana e artística do homem que muitos chamavam simplesmente de “Man Nanás”.
Porque há artistas que não desaparecem. Tornam-se permanência.
Fonte Principal: REDE NACIONAL | KIKALAKALU KIADIBYA
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao

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