TEATRO | INTERCÂMBIO CULTURAL
A companhia teatral angolana “Luzes ao Palco”, sediada na província da Huíla, volta a representar Angola além-fronteiras com a apresentação da peça “Entre Mares e Marés”, integrada na 7.ª edição do Festival Internacional de Artes Performativas de Loulé – Tanto Mar, em Portugal, a decorrer de 26 a 30 deste mês.
A participação marca a terceira presença consecutiva do colectivo no certame internacional, reforçando a afirmação do teatro angolano contemporâneo no espaço lusófono e a crescente valorização das narrativas cénicas produzidas no Sul de Angola.
Uma narrativa entre memória, resistência e identidade
Escrita e encenada por Nelson Dongala, a peça “Entre Mares e Marés” mergulha nas complexidades históricas, sociais e espirituais de uma aldeia angolana sob ocupação colonial portuguesa no século XIX.
A obra cruza memórias ancestrais, conflitos humanos e tensões culturais através de uma linguagem teatral contemporânea carregada de simbolismo. No centro da narrativa estão as personagens Ndala, Otchaly e Samba, figuras que representam resistência, espiritualidade, ambição e sobrevivência em tempos de profunda transformação social.
Segundo a sinopse, Ndala surge como um jovem líder espiritual profundamente ligado às tradições africanas, enquanto Otchaly simboliza a resistência feminina diante da opressão colonial. Já Samba, movida por interesses pessoais e sentimentos não correspondidos, alia-se aos colonizadores, contribuindo para o envio de Ndala ao tráfico de escravos para o Brasil.
Teatro da Huíla ganha projecção internacional
Em declarações ao Jornal de Angola, o encenador Nelson Dongala destacou que a continuidade da presença do grupo no festival português representa um sinal claro do crescimento artístico e técnico do teatro produzido na região Sul do país.
Com 18 anos de existência e mais de 20 produções realizadas, o colectivo “Luzes ao Palco” tem desenvolvido um trabalho voltado sobretudo para a intervenção social, formação artística juvenil e valorização das raízes culturais angolanas.
“Regressamos aos palcos portugueses após experiências muito positivas, que contribuíram significativamente para a projecção internacional do grupo e da cultura angolana”, afirmou o responsável.
Dongala considera ainda que o intercâmbio cultural promovido pelo festival fortalece a presença das artes cénicas africanas no circuito internacional e amplia os espaços de diálogo entre diferentes realidades culturais da lusofonia.
Produção mobiliza apoios para representação digna de Angola
O elenco da peça é composto por Kassandra Pascoal, Letícia Muty e Justino Carmona, enquanto a iluminação cénica está sob responsabilidade de Gervásio Gourgel.
A organização do Festival Tanto Mar, liderada pela instituição Folha de Medronho, assegurou passagens aéreas de ida e volta para cinco integrantes, hospedagem, cartas-convite e apoio documental para obtenção dos vistos.
Apesar disso, a companhia continua a mobilizar apoios institucionais e empresariais para garantir melhores condições logísticas, incluindo transporte interno, figurinos, materiais promocionais e deslocações entre Lubango e Luanda.
Cultura angolana continua a atravessar fronteiras
A presença da companhia “Luzes ao Palco” em Portugal surge num momento em que diferentes colectivos culturais angolanos intensificam esforços para internacionalizar as artes nacionais e afirmar a diversidade cultural do país no exterior.
Ao transportar para o palco internacional temas ligados à memória, resistência e ancestralidade africana, o grupo reafirma o papel do teatro como instrumento de reflexão social, preservação identitária e aproximação entre povos.
A participação no Festival Internacional de Artes Performativas de Loulé consolida igualmente o percurso do colectivo huilano como uma das referências emergentes do teatro contemporâneo angolano.
Fonte: REDE NACIONAL | Jornal de Angola
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao

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