Por Daltron Costa – Organizador de Mídia pela Diáspora | Jornalista Cultural
O projeto “A Grande Travessia: o Retorno, o Reencontro, o Reconhecimento, a Reparação”, concebido pelo antropólogo e professor doutor Dagoberto José Fonseca (UNESP). Durante mais de três séculos, o Atlântico foi palco de uma travessia forçada, marcada pela dor, pela violência e pela desumanização de milhões de mulheres e homens africanos. Entre Luanda e o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, consolidou-se uma das rotas mais brutais da história moderna. A proposta de A Grande Travessia subverte esse percurso: desta vez, a rota parte do porto de Santos, no Brasil, com destino a Luanda, em Angola — não em porões, mas em cabines; não sob correntes, mas com dignidade; não em silêncio, mas com saberes, arte, espiritualidade e celebração. O Projeto SANKOFA 26 – Turnê Real Ngola e Família Africana inscreve-se num tempo histórico em que a memória deixa de ser apenas evocação e passa a orientar movimentos concretos de retorno, reencontro e reconhecimento. É neste ponto que a iniciativa dialoga, de forma profunda e simbólica, com a Grande Travessia.

É precisamente esta inversão simbólica que encontra eco no espírito do SANKOFA 26. Ao promover a Visita Oficial da Turnê Real Ngola ao Brasil, o projeto resgata o princípio africano de Sankofa — voltar ao passado para compreender o presente e reconstruir o futuro. O reencontro entre Brasil e África, entre o povo afrodescendente e a Mãe África, deixa de ser apenas memorial e assume contornos de ação diplomática cultural, espiritual e educativa.
Tal como na proposta de A Grande Travessia, o SANKOFA 26 afirma que o retorno não é um gesto de nostalgia, mas um ato político, cultural e civilizacional. Ambos os projetos convergem na ideia de que é preciso reparar simbolicamente os crimes de lesa-humanidade cometidos durante o tráfico transatlântico, homenagear os que partiram e não chegaram, e reconhecer o papel central dos povos africanos na construção do Brasil e das Américas.
Se A Grande Travessia projeta um futuro em que o trânsito entre Brasil e Angola se reinaugura de forma humana, fraterna e digna, o SANKOFA 26 atua como um marco preparatório e complementar: fortalece laços institucionais, espirituais e comunitários, criando o terreno simbólico e político necessário para que esse trânsito se consolide como política cultural de longo prazo.
Assim, Sankofa e A Grande Travessia não são projetos isolados. São capítulos de uma mesma narrativa histórica em reconstrução — a narrativa de um povo que, depois da travessia da dor, ousa escrever a travessia do retorno. Um retorno consciente, coletivo e ancestral, onde a memória deixa de ser ferida aberta para se tornar ponte viva entre continentes, gerações e futuros possíveis.













Nota Editorial | Imagem, símbolo e consciência coletiva
Na ausência de registos fotográficos diretos dos projetos SANKOFA 26 e A Grande Travessia, a galeria visual que acompanha esta matéria assume um papel simbólico e curatorial. Os logótipos oficiais de ambos os projetos, aliados a obras visuais inspiradoras, funcionam como extensões da narrativa escrita, evocando mensagens de restauração da identidade, resistência pela africanidade e elevação da consciência coletiva.
Mais do que ilustrar, estas imagens comunicam valores: a unidade entre os povos africanos, o Brasil, Angola e a sua diáspora; a memória como força viva; e a ancestralidade como eixo de futuro. Neste encontro entre palavra e imagem, reafirma-se que a travessia continua — agora feita de símbolos, consciência e ação partilhada.

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