Baixa de Cassanje: memória, dignidade e compromisso com os heróis da Nação

Por DIGI Press

A Baixa de Cassanje, na província de Malanje, voltou a ocupar o centro da memória nacional como território-símbolo da resistência angolana contra a repressão colonial. Passados 65 anos dos acontecimentos de 4 de janeiro de 1961, a região reafirma o seu lugar na História como um dos marcos fundadores do despertar da consciência nacionalista que conduziu à Luta Armada de Libertação Nacional.

O massacre que mudou o rumo da História

Em 1961, milhares de camponeses da Baixa de Cassanje revoltaram-se contra o sistema de trabalho forçado, os baixos salários e a cultura obrigatória do algodão imposta pela empresa luso-belga Cotonang. A resposta do regime colonial português foi brutal: bombardeamentos aéreos — os primeiros utilizados pelo exército português em Angola — que resultaram na morte de um número estimado entre seis a dez mil angolanos.

O episódio ficou inscrito na memória coletiva como o Massacre da Baixa de Cassanje, símbolo da violência colonial e da coragem de um povo que ousou dizer basta.

4 de Janeiro: Dia dos Mártires da Repressão Colonial

Assinalado oficialmente como o Dia dos Mártires da Repressão Colonial, o 4 de Janeiro de 2026 foi celebrado em todo o país, com o acto central a decorrer em Malanje, sob o lema “Honrar os Mártires da Repressão Colonial é Manter Viva a Nossa História”. As cerimónias reuniram autoridades locais, antigos combatentes, veteranos da pátria e membros da sociedade civil, num exercício de memória, reflexão e compromisso.

Em Cassanje, os discursos destacaram não apenas o passado, mas também os desafios do presente, sobretudo no que diz respeito às condições de vida daqueles que estiveram na linha da frente da resistência.

Antigos combatentes pedem mais dignidade

Durante as homenagens, antigos combatentes e veteranos da pátria reiteraram o apelo por melhores condições de vida, com destaque para o aumento das pensões, acesso à habitação condigna, apoio às viúvas e órfãos e a disponibilização de instrumentos agrícolas para reforço da subsistência familiar.

No Cunene, o veterano Feliciano Augusto Rufuna sublinhou que o antigo combatente “é um símbolo vivo da resistência singular do povo angolano”, lembrando os actos de coragem, bravura, heroísmo e honra que conduziram à Independência Nacional. Apesar do apoio estatal existente, reconheceu que “as condições de vida de vários antigos combatentes ainda não são dignas”, defendendo a necessidade de se fazer mais para garantir respeito e bem-estar a quem deu tudo pela Pátria.

Na província do Zaire, a Delegação Provincial dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria acompanha cerca de 3.689 assistidos, entre antigos combatentes, deficientes físicos, viúvas e ex-presos políticos, todos beneficiários de uma pensão mensal de 57 mil kwanzas — valor considerado insuficiente face ao custo de vida actual.

FAA reafirmam prontidão e compromisso com a paz

No mesmo contexto de reflexão histórica e institucional, o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA), general de Aviação Altino dos Santos, reafirmou a prontidão das FAA para apoiar esforços de estabilidade, paz e solidariedade, tanto a nível interno como no continente africano.

As FAA, segundo o general, estão disponíveis para contribuir em missões de paz, resposta a calamidades naturais e situações de emergência sanitária, reforçando a cooperação regional e a capacidade de projecção estratégica do país. “Devemos manter a prontidão das forças e meios para apoiar as populações, dentro e fora do país”, afirmou, destacando o papel das FAA como instituição moderna, disciplinada e comprometida com o desenvolvimento económico e social de Angola.

Manter viva a História, valorizar os heróis

As cerimónias alusivas aos 65 anos da Resistência da Baixa de Cassanje serviram, acima de tudo, para reafirmar um compromisso nacional: manter viva a memória dos mártires da repressão colonial e valorizar os heróis vivos da Nação. Entre o passado de sacrifício e o presente de desafios, Cassanje continua a ecoar como consciência histórica e chamada permanente à justiça social, à dignidade e à unidade do povo angolano.

Uma memória que se cruza: Cassanje e o Canhoto da luta clandestina

A história da Baixa de Cassanje cruza-se, também, com os percursos silenciosos da luta clandestina, protagonizados por homens e mulheres que, longe dos holofotes, sustentaram a chama da resistência. Entre essas figuras anónimas da História emerge o “Canhoto”, combatente da luta clandestina, cuja trajectória simboliza a continuidade entre a revolta camponesa de 1961 e as formas organizadas de resistência política que se seguiram.

Tal como os camponeses de Cassanje, o Canhoto representou o angolano comum que, movido pela injustiça colonial, optou pela coragem e pelo risco, actuando nas sombras para garantir circulação de informação, mobilização e apoio à causa da libertação nacional. A sua história inscreve-se na mesma matriz de sacrifício e consciência que fez da Baixa de Cassanje um marco fundador do nacionalismo angolano.

Ao evocar Cassanje e a luta clandestina, Angola reafirma que a sua Independência não foi obra de um único momento ou frente de combate, mas o resultado de múltiplas resistências — visíveis e invisíveis — que, juntas, construíram o caminho da liberdade.

Plantar o espírito, hoje e sempre

Recordar Cassanje, honrar os mártires, valorizar os combatentes visíveis e clandestinos é, acima de tudo, um acto de responsabilidade colectiva. Num mundo global, interligado e em permanente transformação, cabe aos profissionais da comunicação, da cultura, da educação e das artes assumir o seu papel como cidadãos do mundo, sem perder o chão da sua identidade.

Plantar o espírito nacionalista e africanista é semear consciência, dignidade e pertença. É usar a palavra, a imagem e a acção como instrumentos de unidade, fraternidade e reconciliação entre comunidades, dentro e fora de África. Que cada profissional seja agente activo de divulgação da nossa História, dos nossos valores e da nossa humanidade comum, porque só com memória viva se constrói futuro, e só com união se fortalece “Um só povo e uma só Nação Africana”.


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