Por Kikalakalu Kia Dibya | Fotojornalista Cultural
O Auditório do CEARTE — instituição reconhecida como celeiro de futuros profissionais das indústrias criativas angolanas — recebeu, na tarde de 10 de Fevereiro, a pré-estreia de uma nova curta-metragem do cineasta Joshua Cineasta, numa sessão marcada por forte engajamento académico, entusiasmo estudantil e profundo sentido social.
O filme, conduzido pelo roteiro de David Makengo, mergulha numa temática sensível e muitas vezes silenciada: a violência contra menores, com destaque para o abuso sexual infantil. A obra, envolta num equilíbrio entre ficção, crítica social e leves traços de humor narrativo, procura suavizar certas tensões sem comprometer a gravidade do tema. O resultado é uma experiência que estimula reflexão, responsabilidade colectiva e diálogo comunitário.
A sessão contou com a participação do diretor de som Dionísio Daniel, do diretor de produção David Makengo, do diretor de elenco Leonardo Estevão, além de estudantes e docentes do CEARTE. Especialistas convidados — INAC, antropólogos, sociólogos, historiadores e representantes de organismos que lidam com proteção de menores — trouxeram dados, interpretações e alertas sobre a urgência em romper pactos de silêncio que perpetuam traumas na infância angolana.
Antes da exibição, um coletivo de estudantes do curso de dança apresentou duas performances que misturaram ritmos tradicionais e movimentos contemporâneos, estabelecendo uma atmosfera vibrante para uma obra que nasceu no cruzamento entre cultura, educação e cidadania.
A pré-estreia funcionou como laboratório público para troca de experiências entre criadores, estudantes e instituições culturais. Para muitos dos jovens presentes, foi um estímulo adicional para continuar a sonhar, estudar e projetar futuros dentro do audiovisual angolano.

Nota de agradecimento do autor:
Esta reportagem presta saudação especial ao diretor de som Dionísio Daniel, ao coletivo Lord Over Makers, à docente comunicóloga Assunção Kiki, ao CEARTE e todo o seu corpo docente, ao CEO do projeto LOS DUROS, Fred Silva, e à DIGITECHNOLOGY, pelo compromisso em fortalecer espaços de formação, criação e diálogo cultural em Angola.

Crítica Cinematográfica Pedagógica e Sensível
Crítica | Pré-Estreia da Curta-Metragem no CEART
Por Kikalakalu Kia Dibya – Crítico Cultural e Fotojornalista
A pré-estreia desta curta-metragem, realizada no dia 10 de fevereiro no auditório do CEARTE, transcendeu o formato tradicional de exibição. Transformou-se num espaço vivo de debate, reflexão e construção crítica entre criadores, estudantes, especialistas e público. A atmosfera evocava a essência maior das artes: a capacidade de provocar, educar e curar.
Para mim, foi também um momento simbólico, marcando a minha estreia pública como crítico convidado — diante de uma geração que reencontra no CEARTE um berço de talentos e um laboratório permanente de experimentação criativa.
1. A Obra: Ficção necessária com pulsação documental
A narrativa, centrada nos abusos contra menores — sobretudo o abuso sexual infantil — foi tratada com equilíbrio entre ficção, humor e drama. Porém, há um elemento que eleva a obra para além da ficção:
a presença de relatos reais, documentados e analisados pelo núcleo de especialistas convidados, que trazem à superfície casos verídicos, dados reais conferidos pelo INAC, padrões de violência e experiências concretas de intervenção.
Esses depoimentos — provenientes de sociólogos, psicólogos, técnicos de justiça, agentes de proteção – INAC e investigadores — criam uma ponte direta entre o filme e a vida real.
Esta componente factual confere ao projeto um carácter híbrido, aproximando-o de um documentário de puro ativismo social-cultural. Na minha leitura crítica, este é um dos pontos mais fortes e mais corajosos da obra.
A ficção oferece a linguagem.
Os testemunhos oferecem a verdade.
E juntos constroem um cinema que não apenas entretém — convoca.
2. A Pré-Estreia: CEARTE no seu pulsar mais vivo
O evento abriu com performances dos alunos iniciantes de Dança, que misturaram ritmos tradicionais e expressões contemporâneas. Um prólogo simbólico: movimento, ancestralidade e frescor juvenil — a síntese perfeita do espírito CEART.
Seguiu-se um diálogo aberto com o realizador Joshua Cineastra, com o diretor de som Dionísio Daniel, parte do elenco e a equipa técnica. Houve espaço para análise estética, técnica e sociológica, revelando ao público o processo de criação e os desafios éticos de abordar um tema tão sensível.
3. Ficha técnica e espírito de equipa: a força coletiva do novo cinema angolano
A produção reúne uma equipa extensa e competente — intérpretes, técnicos de som, fotografia, figurino, música, direção e produção. O nível de compromisso demonstrado por todos reforça a seriedade com que o projeto foi construído.
O CEARTE reaparece, mais uma vez, como um espaço que forma criadores com mão firme e consciência artística. O filme prova isso de forma evidente.
4. O olhar de Joshua Cineastra: Voz emergente com propósito
Entre todos os nomes, é impossível não destacar o trabalho do realizador Joshua Cineastra.
Sua direção revela maturidade, sensibilidade temática e uma construção narrativa que o afirma como referência para a sua geração. Joshua volta ao CEARTE como ex-aluno que produz, realiza e inspira — tornando-se orgulho para os que vêm atrás e espelho para os que hoje iniciam os seus estudos.
A sua assinatura combina estética jovem, responsabilidade social e coragem narrativa. É a marca de alguém que sabe exatamente porque filma — e para quem filma.
5. Nota de Agradecimentos do Crítico
– Ao irmão e mestre Dionísio Daniel, cuja entrega sonora sustenta emocionalmente a obra.
– À família criativa da Lord Over Makers, pela consistência, camaradagem e visão.
– À comunicóloga Assunção Kiki, pela leitura crítica, inspiração contínua e predisponiblidade de produzir registros de imagens para base de matéria desta critica.
– Ao CEARTE, guardião da formação artística em Angola. Grato a todos os Docentes ali presentes, pelo incentivo e abertura em colaborar como parceiros.
– Ao parceiro estratégico Fred Silva, CEO do projeto LOS DUROS, pela militância cultural.
– À DIGITECHNOLOGY, pelo suporte tecnológico que fortalece as produções audiovisuais e espaço de divulgação neste canal de comunicação digital.
– E, em destaque, ao realizador Joshua Cineastra, pela competência, pela realização firme e por se afirmar como referência viva para a sua geração de ex-estudantes do CEARTE.
6. Conclusão: Cinema que educa, transforma e intervém
A pré-estreia desta obra não foi um ato comemorativo — foi uma chamada à consciência coletiva.
O filme, sustentado por ficção, humor, drama e sobretudo relatos reais, ergue-se como ferramenta de denúncia, educação e transformação social.
O cinema angolano precisa — e merece — mais obras assim: corajosas, humanas, informadas e alinhadas com as dores e esperanças do nosso povo.
O CEARTE mostrou, uma vez mais, que forma artistas com propósito.
E esta equipa mostrou que a arte, quando aliada à verdade, tem o poder de proteger, sensibilizar e abrir caminhos.
Que esta obra seja a primeira de muitas.
E que continue a ecoar onde mais importa: nas casas, nas escolas, nas comunidades — e nas consciências.
Por Kikalakalu Kia Dibya – Crítico Cultural e Fotojornalista












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