performance “O Culto do Cão”

Criadores em Movimento: Rotas Culturais que Reacendem o Pulsar Artístico em Luanda

Da Biblioteca ao Palco: Histórias que alimentam as nossas pautas culturais

Texto — Reportagem | Press.digi

O projecto da Biblioteca 10padronizada tem sido, nos últimos meses, um espaço particularmente vivo, marcado pela presença de criadores que circulam por Luanda em busca de experimentação e partilha. Entre oficinas, ensaios abertos e conversas informais, o local transformou-se num ponto de encontro que alimenta a curiosidade criativa e inspira novas rotas culturais que se convidam serem acompanhadas de perto pelo Press.digi apartir deste ano.

Durante uma das visitas de campo realizadas pela nossa equipa, o percurso levou-nos novamente ao emblemático Elinga Teatro, historicamente reconhecido como território de passagem, criação e manifestação artística. Foi neste ambiente de circulação que encontramos jovens talentos da cena performativa, entre eles a atriz e performer Madaleth Sanda, que nos apresentou fragmentos do seu processo criativo e convidou-nos a assistir a um dos ensaios de uma obra em desenvolvimento.

Esse encontro antecipou a apresentação pública da performance “O Culto do Cão”, integrada na programação do Camões – Centro Cultural Português, apresentada no dia 12 de fevereiro. A obra, concebida por Madalena Sanda e Jamil Parasol Osmar, com participações dos artístas Malik Fofana, Samu Artes, Astra Rodrigues e Braúlio Castro que preencheram o elenco de uma obra que propõe uma reflexão intensa sobre estados emocionais coletivos, comportamentos sociais e tensões contemporâneas.

Este movimento contínuo — visitas, encontros inesperados, práticas artísticas emergentes e partilhas espontâneas — constitui matéria-prima essencial das nossas pautas editoriais. São estas rotas culturais e criativas, muitas vezes invisíveis ao grande público, que revelam a pulsação real da cidade e alimentam o compromisso do Press.digi em documentar, valorizar e difundir o que nasce, cresce e se reinventa no tecido artístico local.

O Press.digi seguirá a acompanhar estes fluxos, registando experiências que fazem do ambiente cultural um território vivo, plural e constantemente em transformação.

BLOCO 2 — Crítica Cultural

Por Kikalakalu Kia Dibya – Crítico Cultural e Fotojornalista

“O Culto do Cão”: Um Ritual de Instintos e Confronto em Espaço Aberto

A performance “O Culto do Cão”, apresentada no exterior do Camões – Centro Cultural Português, surge como um dos exercícios mais provocatórios apresentados recentemente na cidade. Adaptada para um espaço aberto, onde a vida urbana se impõe e onde o inesperado é regra, a obra encontrou um terreno fértil para expandir a sua força simbólica.

A cena inicial — marcada por imagens projetadas de cães confinados e por sons fragmentados — parecia desconexa à primeira vista, mas rapidamente ganhou densidade. Os intérpretes, entre movimentos bruscos, gritos e silêncios prolongados, construíram uma dramaturgia que atravessa instintos, fragilidades, disputas e desejos.

A força simbólica da obra reside na forma como aproxima comportamentos caninos das realidades humanas. Entre abundância e abandono, agressividade e desejo, liberdade e repressão, a performance expõe metáforas sociais que nos obrigam a olhar para questões como desigualdade, moralidade, corpo, política, violência e afeto — tudo condensado num ritual estético intenso.

As máscaras de papelão, as simulações de luta, os banquetes exagerados e a sensualidade desprovida de pudor compõem uma atmosfera onde o grotesco e o sublime se cruzam. A peça não procura respostas fáceis: oferece confrontos. E é justamente nesse confronto que reside o seu mérito artístico.

– disputas por território e poder;
– a sedução e a violência como partes indissociáveis do instinto;
– contrastes entre abundância e abandono;
– liberdade sexual desprovida de moralismos;
– fragilidades sociais expostas pela metáfora animal;
– camadas subtis de crítica política, social e emocional.

A obra questiona normas, provoca sensibilidades e busca compreender o ser humano a partir da animalidade que insiste em regressar sempre que os sistemas se fragilizam.

A interpretação de Jamil Parasol Osmar e Madaleth Sanda é reveladora: visceral, entregue e consciente do espaço que ocupa. A direção e coordenação de Tânia Saraiva e João Azeredo, aliados à produção firme de Kiaku Zambo, demonstram que o cenário artístico angolano está preparado para arriscar, desafiar e abrir caminhos estéticos mais radicais.

Ao público, a peça ofereceu mais que um espetáculo: ofereceu uma experiência limite.
À sociedade, lançou um espelho.
Aos jovens criadores, deixou um manifesto.

Como fotojornalista e crítico cultural, registrei não apenas a dramaturgia do momento, mas o seu impacto: “O Culto do Cão” inscreve-se como uma obra que desloca fronteiras e convoca novas conversas sobre o lugar da arte, da moralidade e da liberdade na Angola contemporânea.

Nota de Apresentação — Galeria Press.digi

Nesta galeria, o fotojornalista e criador visual Kikalakalu Kia Dibya partilha uma das suas paixões mais constantes: a exploração artística das silhuetas. O autor, conhecido pelo olhar sensível e pelo domínio intuitivo da luz, tem sido frequentemente questionado por jovens fotógrafos sobre a sua decisão de fotografar eventos — incluindo noturnos — sem recorrer ao flash.

A opção é estética, mas também filosófica: Kikalakalu prefere preservar a luz ambiente e a atmosfera real do momento, permitindo que a sombra, o contorno e o contraste construam narrativas próprias. Para isso, trabalha intencionalmente em formato RAW, onde desenvolve um processo de revelação digital minucioso, frequentemente em monocromático, para exaltar texturas, formas e nuances invisíveis ao olhar apressado.

Cada imagem aqui apresentada resulta dessa escolha consciente:
um exercício de escuta da luz,
um convite ao silêncio visual,
uma celebração do corpo, do gesto e do instante.

Esta galeria não mostra apenas fotografias — revela a poética de um olhar.

GAELERIA EXTRA PHONE DC