Da Literatura ao Palco: “Niketche” Reacende o Diálogo Cultural Angola–Moçambique

“Niketche” regressa ao palco angolano em tournée que celebra a força da mulher africana

A adaptação teatral de Niketche: Uma História de Poligamia, escrita por Paulina Chiziane, volta aos palcos angolanos numa circulação nacional que reforça o intercâmbio cultural entre Angola e Moçambique. Encenação de Eliot Alex, a peça mergulha no universo feminino a partir da história de Rami, revelando tensões entre tradição, modernidade e emancipação.

Com um elenco inteiramente feminino, a montagem destaca-se pela versatilidade, humor subtil e impacto emocional, conduzindo o público a uma reflexão profunda sobre identidade e transformações sociais no contexto africano.

A tournée, co-produzida pela Kafukolo5 e Associação Luarte, passa por Lubango, Namibe, Benguela, Bengo e Luanda, levando a narrativa para diferentes públicos e consolidando a circulação das artes cénicas no país.

“Niketche” é mais do que teatro — é um gesto cultural entre povos irmãos e um convite à introspecção sobre temas ainda sensíveis, mas indispensáveis ao debate contemporâneo.

Versão crítica

Crítica — por Kikalakalu Kia Dibya

“Niketche”: o espelho que devolve à sociedade africana o rosto das suas próprias contradições

Assistir à encenação de “Niketche” é confrontar-se com uma realidade que, apesar de antiga, permanece presente no tecido social africano. A adaptação dirigida por Eliot Alex demonstra um domínio depurado da narrativa de Paulina Chiziane, mas é no palco — no corpo e na voz das actrizes — que a obra revela sua verdadeira potência.

A escolha de um elenco totalmente feminino é, por si só, uma afirmação estética e política. Estas mulheres reinventam-se continuamente em cena, assumindo múltiplos papéis, vozes, posturas e identidades — incluindo figuras masculinas. Criam, através desta metamorfose constante, um ambiente onde o público é obrigado a reconsiderar o que pensa saber sobre género, poder e afeto na cultura africana.

O impacto emocional é inegável. A peça transita com fluidez entre drama, sátira, comédia e rituais de memória que cada espectador reconhece como parte do seu contexto social. Em determinados momentos, o público ri; noutros, silencia-se diante de verdades difíceis de engolir. Esta oscilação é a maior força da obra: não permite neutralidade, exige posicionamento.

Enquanto jornalista cultural, testemunhei a primeira apresentação no Elinga Teatro durante o CIT, e desde então, percebo que “Niketche” não é apenas teatro — é um processo de cura, um questionamento vivo das tradições que herdamos e da modernidade que tentamos construir. A tournée em Angola reafirma a necessidade de espaços onde a arte dialogue com a realidade, sem medo de provocar.

“Niketche” é uma peça que se vê com os olhos, mas se sente com a memória. E a memória, nos nossos povos, é uma força que não se apaga.

Assinatura:
Kikalakalu Kia Dibya
Jornalista cultural & Fotojornalista

Agenda da tournée:

  • 27 de Fevereiro – Lubango (ISCED)
  • 28 de Fevereiro e 01 de Março – Namibe (CC Mussungo Bitoto)
  • 06 e 07 de Março – Benguela (Auditório RNA)
  • 14 e 15 de Março – Bengo (Cine Teatro Caxito)
  • 20 e 21 de Março – Luanda

Este percurso evidencia a vontade de aproximar públicos e promover circulação artística entre províncias, ampliando o impacto social do espectáculo e fortalecendo a cooperação cultural regional.


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