Reportagem Cultural | Press.Digi
No emblemático Palácio de Ferro, realizou-se uma mesa-redonda dedicada ao tema “Línguas Africanas e Francofonia: Diálogos entre Línguas”, reunindo académicos, artistas, investigadores e representantes diplomáticos para uma reflexão profunda sobre os caminhos da diversidade linguística e cultural em Angola.
A sessão, acompanhada pelo Press.Digi, destacou-se pela qualidade do painel e pela pluralidade de visões apresentadas, num encontro que cruzou saberes da antropologia, da literatura, da linguística e da diplomacia cultural.
Vozes femininas entre a ciência e a poesia
O bloco feminino foi marcado pela presença de duas figuras de referência.
A antropóloga e docente universitária Agnela Barros abriu o diálogo com uma abordagem centrada na importância das oralidades africanas e na forma como as línguas tradicionais preservam memórias, valores e cosmovisões dos povos de matriz bantu. Reconhecida pelo seu trabalho de investigação sobre culturas angolanas e africanas, destacou o papel das expressões culturais de raiz como património vivo que continua a dialogar com a contemporaneidade.
Ao seu lado, a poetisa, actriz e produtora cultural Lua Mbeji trouxe a perspectiva da criação artística. Falando a partir da experiência de quem trabalha com a palavra — escrita, dita e performada — sublinhou como a poesia se transforma num instrumento de intervenção cultural e social, capaz de traduzir inquietações colectivas e sensibilidades profundas. Para a artista, a palavra continua a ser um território de resistência e reinvenção cultural.

A dimensão académica e científica do debate
Na ala académica, o painel contou com a intervenção de José Pedro, director do Instituto de Línguas Nacionais de Angola.
Durante a sua exposição, destacou a necessidade de reforçar políticas públicas que promovam o ensino e a valorização das línguas nacionais, lembrando que Angola partilha fronteiras com países cuja língua oficial é o francês. Esse contexto geopolítico, segundo explicou, tem provocado ao longo das últimas décadas fenómenos linguísticos interessantes, como a incorporação de vocábulos franceses em várias línguas de matriz bantu faladas nas regiões fronteiriças, como o Ngala.
Para o responsável, a solução passa por equilibrar o ensino das línguas estrangeiras com uma aposta firme na preservação e transmissão das línguas nacionais, defendendo maior inserção destas nos programas curriculares do ensino público.
Complementando a reflexão académica, o docente universitário e linguista Anselmo Ilunga partilhou a sua experiência pessoal como exemplo concreto do poder transformador das línguas.
Segundo explicou, o domínio da língua francesa foi determinante para a sua trajectória académica, permitindo-lhe aceder a programas de bolsas e prosseguir estudos de mestrado e doutoramento em França.
Para o linguista, o conhecimento de diferentes línguas abre portas em múltiplas dimensões da vida — social, cultural, científica e económica — tornando-se uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento individual e colectivo.

Moderação dinâmica e diálogo com o público
A condução do debate esteve a cargo da moderadora Horvanda Andrade Thielleux, que soube equilibrar rigor académico com leveza comunicativa, garantindo a fluidez das intervenções e estimulando momentos de interação com o público presente.
A sala esteve completamente preenchida, reunindo um público diversificado composto por estudantes universitários e do ensino médio, profissionais da comunicação social, artistas, investigadores e representantes diplomáticos.
Entre os convidados institucionais estiveram a embaixadora de França em Angola, Sophie Aubert, e a direcção da Alliance Française de Luanda, que aproveitaram a ocasião para apresentar a programação cultural prevista para o mês dedicado à francofonia.

Entre oportunidades globais e resgate identitário
Ao longo da sessão, ficou evidente uma dupla dimensão do debate.
Por um lado, destacou-se a importância do francês como língua internacional capaz de abrir caminhos para oportunidades académicas, profissionais e culturais em diversos países.
Por outro, emergiu com igual força a necessidade de reforçar o ensino, a valorização e a transmissão das línguas nacionais angolanas, consideradas elementos centrais da identidade cultural e da memória histórica do país.
Especialistas presentes no encontro referiram que o francês se tem afirmado como uma das línguas estrangeiras mais faladas em Angola, fenómeno impulsionado pelas relações comerciais e culturais com países vizinhos da África Central e Ocidental.
Reflexão editorial: língua, identidade e desenvolvimento
Para o Press.Digi, encontros desta natureza demonstram como o debate linguístico vai muito além da gramática ou da comunicação quotidiana. As línguas são instrumentos de conhecimento, diplomacia cultural e desenvolvimento social.
Num país marcado pela diversidade etnolinguística, a valorização das línguas nacionais — como o kimbundu, kikongo, umbundu ou cuanhama — pode desempenhar um papel determinante na inclusão social, no fortalecimento das políticas públicas e na aproximação entre comunidades.
Mais do que preservar heranças culturais, trata-se de transformar a diversidade linguística em activo estratégico para investigação científica, turismo cultural, educação e cooperação africana.
Num continente onde grande parte das línguas partilha raízes na tradição bantu, a promoção destas expressões pode contribuir para reduzir fronteiras simbólicas entre povos africanos e fortalecer redes de intercâmbio cultural e académico.

Conclusão
A mesa-redonda sobre “Línguas Africanas e Francofonia” demonstrou que o futuro das sociedades africanas passa pela capacidade de dialogar entre tradição e modernidade.
Dominar línguas internacionais abre portas para o mundo.
Preservar e ensinar as línguas nacionais fortalece as raízes de um povo.
Entre esses dois caminhos, o desafio — e a oportunidade — reside em construir pontes linguísticas capazes de afirmar Angola no espaço africano e global sem perder o vínculo com a sua identidade cultural profunda.
AGENDA
– celebrações do Mês da Francofonia em Luanda –
- Debates e Mesas-redondas: Discussões sobre o papel da língua francesa e a cooperação cultural entre Angola e os países francófonos.
- Cinema Francófono: Projeções de filmes de diversos países que partilham a língua francesa.
- Exposições e Artes: Mostras artísticas e ateliês criativos em espaços como o Palácio de Ferro.
- Formação e Ateliês: Workshops educativos e sessões de formação.
- Noite dos Sabores: Evento gastronómico tradicional que celebra a culinária dos países membros.
A agenda cultural da capital continua a ganhar corpo com uma programação diversificada que se estende até ao próximo dia 20, reunindo iniciativas que aproximam Angola do universo cultural dos países que partilham a língua francesa.























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