Reportagem – Cultura & Sociedade | Press.Digi
No cenário cultural de Angola, iniciativas que valorizam a memória coletiva e o papel da mulher africana têm ganho novos espaços de reflexão. Entre elas destaca-se “Na Mulembeira”, um encontro de diálogo que coloca no centro da conversa a feminilidade africana como expressão de ancestralidade, resistência e transformação social.
A proposta do espaço vai além de uma simples roda de conversa. Trata-se de um território simbólico de partilha, onde hábitos, costumes e experiências femininas são revisitados como património vivo que atravessa gerações. A iniciativa procura reconhecer a mulher africana como guardião de memória cultural, agente económico e força de coesão comunitária.
Moderado pela investigadora e gestora cultural Mara Patrícia Kiasekoka Mabanza, o encontro reúne vozes femininas de diferentes áreas da vida social angolana, evidenciando a transversalidade da liderança feminina no país.
Entre as convidadas está Marlen Kanando, empreendedora cultural, artesã e atriz residente em Luanda. Reconhecida pela promoção da gastronomia tradicional e dos saberes artesanais, dinamiza iniciativas ligadas ao Atelier Oylanda Yetu, onde incentiva novas gerações a redescobrirem práticas culturais como o artesanato em missangas, a culinária tradicional e a valorização estética das raízes angolanas.
A sua atuação também se cruza com projetos de valorização da memória oral e da identidade cultural, como o Raízes em Cena, iniciativa que se dedica à projeção das oralidades nacionais, resgatando narrativas, expressões e saberes transmitidos de geração em geração. Nesse contexto, Marlen Kanando afirma-se como uma das vozes que contribuem para aproximar gastronomia, artesanato, teatro e tradição oral, fortalecendo a presença da cultura angolana nos espaços de criação contemporânea e nas dinâmicas das indústrias culturais.
Outra presença marcante é Isabel Fontes, conhecida do grande público como “Tia Isa”, figura popular da Televisão Pública de Angola. Para além da notoriedade mediática, desenvolve um trabalho consistente de ação social e educação alimentar, promovendo cursos de culinária para crianças em situação de vulnerabilidade e difundindo saberes de saúde natural e nutrição tradicional.
O diálogo promovido por “Na Mulembeira” procura também lançar luz sobre a economia informal e o protagonismo feminino, frequentemente simbolizado pela figura da zungueira — mulher trabalhadora que sustenta famílias, redes comunitárias e parte significativa da dinâmica económica urbana.
Neste contexto, a feminilidade africana é apresentada como território de ancestralidade, onde tradição e inovação caminham lado a lado. A conversa evidencia como as mulheres angolanas se afirmam simultaneamente como empreendedoras culturais, educadoras sociais e agentes de mudança, contribuindo para o fortalecimento das indústrias criativas e culturais no país.
Mais do que um encontro, “Na Mulembeira” assume-se como plataforma de inspiração, capaz de estimular novos modelos de liderança feminina e ampliar o reconhecimento do papel das mulheres na construção da identidade cultural africana.
Linha editorial – Press.Digi
Ao destacar iniciativas como esta, o Press.Digi reforça o seu compromisso com a valorização das vozes femininas africanas, do empreendedorismo cultural e das dinâmicas de identidade que atravessam a sociedade angolana contemporânea.


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