Brasil reconhece primeiro quilombo tombado pelo Iphan
Um marco histórico para a preservação da memória afro-brasileira foi anunciado esta semana no Brasil. A Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, localizada em Campo Grande, no estado de Mato Grosso do Sul, tornar-se-á o primeiro quilombo oficialmente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O anúncio foi apresentado durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Iphan, inaugurando também um novo instrumento de proteção patrimonial: o Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos, criado para reconhecer territórios ligados à história da resistência negra no país.
Segundo o presidente do instituto, Leandro Grass, o reconhecimento representa um passo importante no processo de reparação histórica.
“O trabalho é construído com a participação direta das comunidades, que são as verdadeiras protagonistas”, afirmou o responsável, indicando que outros territórios quilombolas deverão receber o mesmo reconhecimento no futuro.”
Herança de resistência
Conhecida popularmente como Quilombo de Tia Eva, a comunidade foi fundada pela benzedeira e ex-escravizada Eva Maria de Jesus (1848–1929), que após conquistar a alforria estabeleceu ali um espaço de convivência comunitária e espiritualidade.
Ao longo das décadas, o território tornou-se um símbolo de resistência negra e continuidade cultural no centro-oeste brasileiro.
Originalmente de base rural, o quilombo encontra-se hoje inserido no tecido urbano de Campo Grande, mantendo práticas culturais e memórias transmitidas entre gerações.
A arquiteta e moradora da comunidade Rayssa Almeida Silva participou diretamente do processo de documentação do território, ao lado de técnicos do Iphan.
Segundo ela, o reconhecimento representa também a realização de um desejo antigo da comunidade.
“Realizamos o sonho dos mais velhos e queremos despertar o interesse dos jovens pela história do quilombo e pelo exemplo de Tia Eva de nunca desistir das batalhas.”
Já Nilton dos Santos Silva, tataraneto da fundadora, destacou que a medida pode contribuir para a valorização da memória local e para melhorias estruturais na comunidade.
Política cultural e reparação histórica
O processo de reconhecimento iniciou-se em 2024, a partir de diálogos entre técnicos do Iphan e moradores da comunidade. A iniciativa baseia-se na Portaria nº 135 de 2023, que criou um instrumento específico de proteção patrimonial voltado aos antigos quilombos.
A política estabelece princípios como:
- autodeterminação das comunidades
- consulta prévia aos moradores
- valorização do protagonismo afro-brasileiro
- abordagem antirracista nas políticas patrimoniais
Com esta medida, o Brasil passa a reconhecer oficialmente quilombos não apenas como territórios sociais, mas também como patrimónios históricos da luta pela liberdade.
Enquadramento editorial — PRESS.digi
Para o PRESS.digi, o reconhecimento da comunidade de Eva Maria de Jesus ultrapassa a dimensão patrimonial. Ele integra um movimento internacional de valorização da memória africana e da diáspora negra, que hoje ganha novo espaço nas políticas culturais e nas narrativas históricas contemporâneas.
Em diferentes países do mundo — da América do Sul ao Caribe, da Europa às próprias nações africanas — cresce o interesse por territórios de memória ligados à resistência negra, à ancestralidade e à formação das sociedades modernas.
A história dos quilombos no Brasil, assim como outras experiências de resistência africana na diáspora, revela a persistência de comunidades que transformaram luta, espiritualidade e solidariedade em formas de sobrevivência cultural.
Ao acompanhar estas iniciativas, o PRESS.digi reforça a sua linha editorial dedicada às relações entre África, diáspora e património cultural, promovendo reflexões que ligam memória histórica, políticas culturais e identidade.
Fonte: Agência Brasil
Edição e enquadramento editorial: PRESS.digi
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