“RAÍZES – Sementes de Memórias” marca estreia de plataforma cultural afrocentrada em Luanda

Projecto propõe novas narrativas de identidade, oralidade e valorização das línguas nacionais em todo o território nacional

CULTURA | ARTE & IDENTIDADE DE RAÍZES AFRO

Em grande reportagem, a estreia da multiplataforma cultural e artística “Raízes em Cena” revelou-se como um manifesto vivo de identidade, memória e reconexão com as matrizes africanas, através da peça “RAÍZES – Sementes de Memórias”, apresentada nos dias 17 e 18 de Abril, no palco do Teatro Mar, em Luanda.

Mais do que uma proposta cénica, o projecto assume-se como uma estrutura de pensamento e acção cultural, orientada para a documentação, promoção e resgate das múltiplas expressões culturais angolanas, com enfoque na oralidade, nas línguas nacionais e nos saberes ancestrais.


Missão: construir narrativas a partir da raiz

Segundo a direcção do projecto, a iniciativa nasce com a ambição de criar pontes para novas narrativas culturais, capazes de sustentar a produção de conteúdos educativos, documentais e académicos.

A valorização das línguas nacionais surge como eixo estruturante, entendidas como códigos vivos de transmissão de conhecimento ancestral e ferramentas fundamentais para o reforço da identidade colectiva e da investigação cultural em Angola.


A cena como território de memória

Também inspirada no poema “Havemos de Voltar”, de Agostinho Neto, a peça transporta para o palco um conjunto de referências simbólicas que evocam a terra, os ciclos, os recursos e as tradições do povo angolano.

O cenário, cuidadosamente construído, recriou um ambiente rural e ancestral, com elementos orgânicos como raízes, sementes, frutas e artefactos tradicionais, compondo uma estética sensorial que dialoga com o imaginário colectivo.

A utilização de elementos como mucúa, kizaca, mandioca, cana-de-açúcar e bebidas tradicionais reforçou a dimensão identitária da encenação, criando uma ponte entre o espaço cénico e a vivência cultural do quotidiano angolano.


Oralidade, diversidade linguística e unidade

Um dos momentos mais marcantes da peça foi a dinâmica linguística entre as personagens, representando diferentes regiões do país:

  • Kimbundu (litoral)
  • Umbundu (centro)
  • Kikongo (norte)
  • Oshiwambo (sul)
  • Tchokwe (leste)

Apesar da diversidade linguística, o espectáculo demonstrou uma comunicação fluida e harmoniosa entre as personagens, evidenciando que a identidade cultural transcende a linguagem verbal, assentando também em gestos, ritmos e expressões colectivas.

A performance destacou valores como convivência, respeito, partilha e unidade, reforçando a ideia de que a pluralidade cultural é um dos pilares da construção da nação.


Impacto no público e leitura simbólica

Ao longo da apresentação, o público foi conduzido por uma experiência imersiva que alternou entre tensão dramática, celebração e reflexão.

As “sementes de memórias” evocadas em cena activaram referências afectivas e culturais nos espectadores, criando um espaço de reconhecimento e redescoberta da identidade angolana.

A peça propõe, assim, uma leitura simbólica da cultura como elemento vivo, em constante reconstrução, onde tradição e contemporaneidade coexistem.


Plataforma em expansão: formação, pesquisa e produção

Para além da encenação teatral, a plataforma “Raízes em Cena” prevê o desenvolvimento de um ecossistema cultural mais amplo, incluindo:

  • Workshops e formações cénicas
  • Capacitação em oratória e expressão
  • Produção de conteúdos audiovisuais
  • Investigação cultural e documentação
  • Elaboração de manuais didácticos

O objectivo passa por consolidar uma base de conhecimento estruturada sobre práticas culturais angolanas, com impacto no sistema educativo e nas indústrias criativas.


Bastidores e equipa artística

A produção reuniu um colectivo artístico de relevância, destacando-se:

Elenco principal:
Marlen Kanando, Júlia Capemba, Júlia Kiala, Júlia Quintas e Solange Capalanga

Direcção de Produção:
Daltron Costa

Assistência de Produção:
João Paulo

Consultoria e crítica teatral:
Beto Gama

Apoio técnico (som e luz):
José Pedro (Teatro Mar)

Caracterização (pintura de rostos):
José e Josemar Kixima

A direcção artística sublinhou os desafios enfrentados na construção do projecto, desde a recomposição do elenco até às limitações estruturais, destacando a resiliência do colectivo e o compromisso com a concretização da obra.


Teatro Mar: espaço de afirmação cultural

O Teatro Mar, palco da estreia, reafirmou o seu posicionamento como espaço de acolhimento e promoção das artes, assumindo-se não apenas como infraestrutura cultural, mas como uma verdadeira casa para os artistas.

A direcção do espaço destacou o compromisso com projectos que valorizam identidades e dão voz a narrativas frequentemente ausentes nos circuitos convencionais.


Nota editorial | Olhar PRESSdigi

A estreia de “Raízes em Cena” posiciona-se como um exercício contemporâneo de reconstrução identitária, onde a arte deixa de ser apenas expressão estética para se afirmar como ferramenta de memória, educação e afirmação cultural.

Num contexto em que as dinâmicas globais tendem a uniformizar discursos, iniciativas desta natureza reforçam a necessidade de preservar e projectar as epistemologias africanas, valorizando as línguas, os rituais e os sistemas de conhecimento locais.

A proposta abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre o papel das instituições culturais e educativas na integração efectiva destas matrizes no desenvolvimento nacional, numa lógica de continuidade histórica e inovação cultural.

Fonte: Reportagem PRESSdigi – Rede Internacional
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