Prémio DstAngola/Camões gera contestação e reacende debate sobre critérios literários

Júri defende legalidade da decisão e rejeita acusações de irregularidades no processo de avaliação

CULTURA | LITERATURA & INSTITUIÇÕES

Luanda — A mais recente edição do Prémio DstAngola/Camões de Poesia 2025 volta a colocar o campo literário angolano no centro de um debate sobre critérios, regulamentos e legitimidade institucional, após a contestação pública do escritor José Luís Mendonça (JLM) à decisão do júri.


Contestação pública e reacção institucional

O escritor José Luís Mendonça manifestou desacordo com o resultado do concurso, questionando os critérios de avaliação e sugerindo a reavaliação das obras por um novo júri.

Em resposta, o colectivo de jurados — composto por José Mena Abrantes (presidente), Amélia Dalomba e David Capelenguela — veio a público reafirmar a conformidade do processo com o regulamento estabelecido, sublinhando que as decisões são soberanas e não passíveis de recurso, conforme previsto nas normas do prémio.


Regulamento e critérios em análise

De acordo com o regulamento da VII edição, o concurso destina-se exclusivamente a obras publicadas entre 2023 e 2024.

O júri esclarece que a exclusão de determinadas obras deveu-se ao facto de se tratarem de reedições ou compilações de textos anteriormente publicados, o que, segundo os critérios definidos, colocaria esses trabalhos em posição de vantagem face a obras inéditas concorrentes.

A comissão reforça que esta decisão não está relacionada com a qualidade literária dos autores excluídos, mas sim com a necessidade de պահպանar a equidade entre os participantes.


A obra vencedora e a fundamentação

A distinção foi atribuída, por unanimidade, ao livro “111 Sonetos Novembrinos”, de Paulo Campos.

Na acta oficial, o júri destacou a consistência formal da obra, evidenciando o domínio do autor sobre a estrutura clássica do soneto, aliado a uma linguagem acessível e temática diversificada, que percorre desde narrativas do quotidiano a reflexões existenciais e valores éticos.


Ética, crítica e espaço público

A polémica levanta questões mais amplas sobre o papel da crítica literária e os limites entre discordância legítima e questionamento institucional.

O júri considerou infundadas as acusações de falta de leitura das obras, classificando-as como lesivas da idoneidade dos seus membros e do próprio processo avaliativo.

O episódio evidencia, por outro lado, a vitalidade do debate cultural em Angola, onde a literatura continua a ser espaço de confronto de ideias, sensibilidades e visões sobre o fazer artístico.


Nota editorial | PRESSdigi.ao

Num olhar mais amplo, o caso revela a necessidade de reforçar mecanismos de transparência, comunicação e pedagogia institucional nos concursos literários, promovendo maior compreensão pública sobre critérios e processos.

Ao mesmo tempo, convida à reflexão sobre a construção de ecossistemas culturais mais inclusivos, onde diferentes gerações e correntes estéticas possam dialogar em condições de equidade, valorizando tanto a inovação quanto a memória literária.

Mais do que um episódio isolado, a situação expõe tensões estruturais de um campo cultural em crescimento, que procura equilibrar rigor técnico, reconhecimento institucional e liberdade crítica — elementos fundamentais para a consolidação de uma identidade literária nacional plural e sustentável.


Fonte: Jornal de Angola | Rede Nacional
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao