Iniciativa reúne instituições culturais e investigadores para revisitar rotas atlânticas e patrimónios partilhados
CULTURA & INTERCÂMBIO TRANSATLÂNTICO
Luanda/Bahia — O Centro Cultural Casa de Angola na Bahia, em parceria com o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), promoveu no dia 18 de Abril de 2026 o projecto “Trilhas de Memória: Rotas de Turismo Cultural de Angola; Rotas Transatlânticas”, um encontro que reforça o diálogo histórico e cultural entre África e a diáspora.
Realizado em formato híbrido, o evento reuniu especialistas, artistas e agentes culturais num exercício de reflexão sobre memória, identidade e os caminhos que ligam Angola às Américas.
Plataforma de diálogo e construção colectiva
A sessão contou com a participação do Dr. Luandino Carvalho, Adido Cultural da Embaixada de Angola no Brasil e Director do Centro Cultural Casa de Angola na Bahia, bem como de Samantha Buglione, investigadora e cocoordenadora do projecto.
A dimensão internacional foi reforçada com intervenções virtuais de Jessé Manuel (Okuya/Angola), fotógrafo e co-coordenador, e de Celestino Bastos, fundador do projecto Biso, ambos integrando a rede de construção desta iniciativa.
O encontro destacou-se como espaço de partilha de conhecimento, cruzando olhares académicos, artísticos e comunitários sobre a herança comum entre Angola e o Brasil.
Rotas históricas e memória atlântica
No centro do debate esteve a análise das trajectórias históricas das populações africanas que foram forçadas a deixar os seus territórios de origem durante o período da escravatura.
A abordagem incidiu particularmente sobre as regiões que hoje integram Angola, sublinhando o impacto do sequestro e dispersão de povos africanos para diferentes geografias do mundo.
A iniciativa propõe uma releitura dessas rotas não apenas como episódios históricos, mas como caminhos vivos que continuam a moldar identidades culturais contemporâneas nas Américas e na Europa.
Turismo cultural como instrumento de reconexão
O projecto “Trilhas de Memória” apresenta-se também como uma proposta estratégica para o desenvolvimento do turismo cultural, ancorado em narrativas históricas e patrimoniais partilhadas.
A valorização dessas rotas transatlânticas surge como oportunidade para reforçar políticas de memória, educação e intercâmbio, promovendo experiências que ligam territórios, comunidades e gerações.
Identidade, património e projeção global
Ao reconhecer a dimensão global destas histórias, a iniciativa contribui para consolidar a compreensão de que a herança africana não se limita ao continente, mas estende-se como matriz estruturante de múltiplas sociedades.
O diálogo estabelecido aponta para a necessidade de preservar, investigar e difundir esse património comum, fortalecendo pontes culturais sustentadas na memória, na verdade histórica e na cooperação internacional.
Nota editorial | PRESSdigi.ao
Num contexto em que as narrativas históricas ganham novas centralidades, projectos como “Trilhas de Memória” reafirmam a urgência de uma leitura afrocentrada das rotas atlânticas, reposicionando África — e Angola em particular — não apenas como ponto de partida, mas como eixo activo na reinterpretação dessas histórias.
A proposta abre espaço para repensar políticas culturais e turísticas que integrem memória, identidade e desenvolvimento, promovendo uma diplomacia cultural mais consciente, inclusiva e conectada com as realidades da diáspora.
Sem encerrar o debate, a iniciativa convida à continuidade de um processo colectivo de reconexão histórica, onde o passado se transforma em ferramenta estratégica para a construção de futuros mais equilibrados e partilhados.
Nota Extra | Conexões de Memória e Cena Viva
Se, por um lado, o projecto “Trilhas de Memória” propõe revisitar os caminhos históricos que ligam Angola à diáspora através de uma abordagem académica, patrimonial e turística, por outro, a peça “Raízes – Sementes de Memórias” materializa esse mesmo percurso no corpo, na voz e na presença cénica.
São iniciativas distintas na forma, mas profundamente alinhadas na essência: ambas partem da necessidade de recontar histórias a partir de dentro, reposicionando o sujeito africano como narrador activo da sua própria memória.
Enquanto “Trilhas de Memória” desenha rotas geográficas e simbólicas entre continentes, “Raízes em Cena” recria essas travessias no palco, através da oralidade, das línguas nacionais e da expressão artística que devolve vida às heranças ancestrais.
Há, neste paralelismo, uma complementaridade evidente:
— uma iniciativa investiga, documenta e estrutura;
— a outra estuda, sente, interpreta, produz e comunica.
Ambas, no entanto, convergem no mesmo ponto de partida e de chegada — a valorização da ancestralidade como fundamento identitário e ferramenta de reconexão contemporânea.
Este cruzamento abre espaço para um campo fértil de cooperação cultural, onde investigação e criação artística podem dialogar de forma contínua, gerando fluxos reais entre territórios, comunidades e agentes culturais.
Num tempo em que as narrativas globais ainda disputam versões da história africana, iniciativas como estas apontam para um caminho mais afirmativo: contar, preservar e projectar as nossas memórias a partir de nós mesmos, com linguagem própria, referências próprias e protagonismo legítimo.
Mais do que coincidência temática, trata-se de um movimento em curso — onde palco e território, corpo e arquivo, passado e presente se encontram para reescrever, em conjunto, as trilhas da nossa própria história.
Fonte: Centro Cultural Casa de Angola na Bahia | Rede Nacional
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao


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