José Weza destaca papel histórico do conjunto na valorização das línguas nacionais e na resistência cultural angolana.
MEMÓRIA CULTURAL | MÚSICA & IDENTIDADE
O jornalista cultural, escritor e pesquisador José Weza afirmou, no sábado, no Palácio de Ferro, em Luanda, que o histórico Conjunto Ngola Ritmos desempenhou um papel determinante na valorização da cultura angolana e na resistência ao regime colonial, através da música, da língua e da afirmação identitária nacional.
As declarações foram feitas durante a oficina “Percurso rítmico da música angolana”, integrada na quinta edição do Festival Balumuka, evento realizado em homenagem ao lendário agrupamento musical que marcou profundamente a história cultural de Angola.
Música como instrumento de resistência cultural
Autor da obra “O Percurso Histórico da Música Angolana”, José Weza destacou que o Ngola Ritmos surgiu num período em que a cultura angolana era marginalizada pelo sistema colonial português, utilizando a música como ferramenta de consciência, resistência e valorização das raízes africanas.
Segundo o pesquisador, o grupo apostou fortemente nas línguas nacionais e nos ritmos tradicionais angolanos, sobretudo através de interpretações em kimbundo, numa época em que as expressões culturais africanas enfrentavam repressão e invisibilidade institucional.
“Cantavam maioritariamente em kimbundo e recorriam aos estilos musicais nacionais a fim de valorizar a cultura dos seus antepassados. Muitos integrantes chegaram a ser presos por tentarem despertar a consciência dos angolanos através da música”, afirmou José Weza.
Legado continua vivo entre gerações
Durante a oficina, o pesquisador explicou que o Ngola Ritmos teve uma influência decisiva na popularização dos ritmos nacionais e na valorização das línguas angolanas, tornando-se uma referência para várias gerações de músicos e intérpretes.
José Weza considerou que o legado do conjunto permanece actual e deve continuar a ser preservado e transmitido à juventude angolana como património histórico, cultural e identitário.
Entre as composições mais emblemáticas destacadas pelo investigador figuram os clássicos “Muxima” e “N’biri Birin”, considerados marcos incontornáveis do cancioneiro nacional.
Festival Balumuka reforça preservação da memória cultural
Para José Weza, iniciativas como o Festival Balumuka desempenham um papel fundamental na preservação da memória cultural angolana, ao homenagearem figuras e movimentos históricos da música nacional e despertarem o interesse das novas gerações pelas sonoridades ancestrais do país.
Sob o lema “Honremos o legado histórico do Ngola Ritmos, exaltando o seu património rítmico e musical”, o festival promoveu debates, oficinas, exibições audiovisuais e apresentações artísticas centradas na valorização da música tradicional angolana.
Durante o primeiro dia do evento foi igualmente exibido o documentário “O Ritmo do Ngola Ritmos”, produzido pela Televisão Pública de Angola (TPA), reunindo imagens históricas, actuações do grupo e depoimentos de antigos integrantes sobre os desafios enfrentados durante o Período Colonial.
Artistas celebram herança musical angolana
O Palácio de Ferro recebeu ainda actuações de artistas como Ângela Ferrão, Antero Ekuikui, Kamba Dya Muenho e Trio Bix Semba Muxima, que revisitaram clássicos e interpretações ligadas à música ancestral angolana.
As apresentações reforçaram o papel da música como elo entre memória, identidade e resistência cultural, num ambiente de forte valorização patrimonial e histórica.
Ngola Ritmos: pioneiros da identidade musical angolana
Fundado em 1947 por Liceu Vieira Dias, Domingos Van-Dúnem, Mário da Silva Araújo, Manuel dos Passos e Nino Ndongo, o Conjunto Ngola Ritmos é considerado um dos agrupamentos musicais mais importantes da história de Angola.
Nas décadas de 1950 e 1960, o grupo integrou nomes históricos como Amadeu Amorim, José Maria, Euclides Fontes Pereira “Fontinhas”, José Cordeiro dos Santos, Lourdes Van-Dúnem, Gege, Xodó e Belita Palma.
Movidos pelo desejo de redescobrir e valorizar as raízes culturais angolanas, os músicos do Ngola Ritmos reinventaram a música nacional e abriram caminho para a afirmação da identidade cultural angolana através da arte.
O seu legado permanece como símbolo de resistência, orgulho africano e consciência cultural.
Fonte Principal: REDE NACIONAL | Jornal de Angola
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao
Referência Cultural: TPA – Televisão Pública de Angola

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