BRICS E ÁFRICA: NOVAS VIAS DE FINANCIAMENTO, COMÉRCIO E INDUSTRIALIZAÇÃO GANHAM ESPAÇO

NOVA DELI COLOCA COOPERAÇÃO ECONÓMICA E FINANCEIRA NO CENTRO DO DEBATE

A 18.ª Cimeira dos BRICS, realizada em Nova Deli, Índia, nos dias 12 e 13 de Setembro de 2026, sob o lema “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability”, reforçou o debate sobre cooperação económica, financeira, tecnológica e de desenvolvimento entre as economias emergentes.

A Declaração de Nova Deli reafirma o compromisso dos membros com o crescimento inclusivo, o desenvolvimento sustentável e o aprofundamento da cooperação económica e financeira, num contexto de transformação da economia mundial.

Para os países africanos, estas orientações poderão abrir novas possibilidades de diversificação de parceiros, fontes de financiamento, mercados e mecanismos de cooperação, embora os resultados concretos dependam da implementação dos compromissos assumidos e das políticas adoptadas por cada país.

NOVAS POSSIBILIDADES PARA O FINANCIAMENTO DO DESENVOLVIMENTO

Entre os instrumentos de interesse para África está o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), instituição associada aos BRICS e orientada para o financiamento de projectos de infra-estruturas e desenvolvimento sustentável.

O reforço da capacidade de financiamento poderá beneficiar áreas como energia, transportes, saneamento, logística e infra-estruturas urbanas, sectores fundamentais para a integração económica e para a expansão das actividades produtivas no continente.

A própria Declaração de Nova Deli coloca a cooperação para o desenvolvimento sustentável e a construção de infra-estruturas resilientes entre as áreas de aprofundamento da parceria do bloco.

Para as economias africanas, a existência de fontes adicionais de financiamento pode contribuir para uma maior diversificação dos parceiros de desenvolvimento, sem substituir a necessidade de uma gestão rigorosa da dívida e da sustentabilidade financeira dos projectos.

COMÉRCIO E UTILIZAÇÃO DE MOEDAS NACIONAIS

Outro eixo relevante da agenda dos BRICS é o aprofundamento da cooperação económica e financeira, incluindo esforços para facilitar o comércio e os pagamentos entre os países membros.

A discussão sobre moedas locais e mecanismos de pagamento transfronteiriços poderá ter implicações para economias africanas que procuram reduzir determinados custos de conversão e diversificar os seus instrumentos de comércio internacional.

A Declaração de Nova Deli reafirma o interesse dos membros em fortalecer a cooperação financeira e os mecanismos que facilitem as transacções entre as economias do bloco.

Importa, contudo, distinguir entre o aprofundamento desses mecanismos e a criação de uma moeda única dos BRICS: a cimeira não estabeleceu uma moeda comum do bloco.

INDUSTRIALIZAÇÃO E VALOR ACRESCENTADO EM ÁFRICA

A expansão da cooperação Sul-Sul poderá também criar oportunidades para o desenvolvimento de cadeias de valor e capacidade produtiva em sectores estratégicos.

Para África, o desafio passa por transformar a disponibilidade de recursos naturais e agrícolas em maior produção local, processamento, tecnologia, emprego e valor acrescentado.

Sectores como minerais críticos, agricultura, energia, tecnologias digitais e inovação podem assumir particular importância neste processo, desde que os investimentos sejam acompanhados por políticas industriais, formação de recursos humanos e condições adequadas para o desenvolvimento empresarial.

A agenda dos BRICS para 2026 inclui áreas como inovação, sustentabilidade, energia, agricultura, tecnologia e desenvolvimento de capacidades, elementos que podem dialogar com prioridades de industrialização e transformação económica no continente africano.

ÁFRICA GANHA MAIOR PRESENÇA NA ESTRUTURA DOS BRICS

A presença africana no agrupamento foi reforçada com a integração do Egipto e da Etiópia, que se juntaram à África do Sul. Actualmente, o BRICS reúne 11 membros: Brasil, China, Egipto, Etiópia, Índia, Indonésia, Irão, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul e Emirados Árabes Unidos.

Esta composição amplia a participação directa de economias africanas nas discussões do bloco e cria novas plataformas de diálogo sobre financiamento, comércio, infra-estruturas, tecnologia e reforma das instituições multilaterais.

A Declaração de Nova Deli defende igualmente maior participação e representação das economias emergentes e dos países em desenvolvimento nos processos de decisão da arquitectura multilateral internacional.

INFRA-ESTRUTURAS E INTEGRAÇÃO CONTINENTAL

Para África, os investimentos em infra-estruturas têm uma dimensão que ultrapassa os projectos nacionais.

Energia, corredores ferroviários e rodoviários, portos, saneamento, conectividade digital e logística podem contribuir para melhorar a circulação de pessoas, bens e serviços e apoiar a integração dos mercados africanos.

Neste contexto, uma maior disponibilidade de financiamento e cooperação internacional poderá dialogar com os objectivos da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA/AfCFTA), sobretudo na criação de condições físicas e digitais para a expansão do comércio intra-africano.

OPORTUNIDADES ACOMPANHADAS DE DESAFIOS

A aproximação aos BRICS não elimina os desafios enfrentados pelas economias africanas.

O recurso a financiamento externo exige atenção à sustentabilidade da dívida, enquanto a transformação dos investimentos em crescimento económico dependerá da qualidade dos projectos, da capacidade institucional, da transparência e da criação de actividades produtivas.

Também permanece relevante a necessidade de os países africanos manterem uma estratégia de diversificação das relações económicas internacionais, desenvolvendo relações com os BRICS, mas igualmente com a União Europeia, Estados Unidos e outros parceiros comerciais e financeiros.

DE MAIOR MARGEM DE ESCOLHA A RESULTADOS CONCRETOS

A 18.ª Cimeira dos BRICS reforçou a agenda de cooperação económica, financeira, tecnológica e de desenvolvimento do agrupamento. Para África, a expansão do bloco e a presença de três países africanos entre os seus membros criam canais adicionais para o diálogo e a cooperação internacional.

O principal desafio passa agora pela conversão das oportunidades em resultados concretos: financiamento produtivo, infra-estruturas, industrialização, transferência de conhecimento, criação de emprego e maior capacidade de participação africana nas cadeias globais de valor.

Mais do que a diversificação de parceiros, a questão central para as economias africanas será a capacidade de utilizar essa margem de cooperação para fortalecer estruturas produtivas, ampliar o valor acrescentado interno e promover um desenvolvimento económico sustentável e socialmente inclusivo.

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Classe / Tema: Economia e Impactos Sociais | África no Contexto Global | BRICS | Cooperação Sul-Sul

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