Carlos Lamartine celebrado como “Imbondeiro” da música angolana em memorável edição do Caldo do Poeira | MUSICA E CULTURA

Projeto da Rádio Nacional de Angola reuniu gerações, artistas e admiradores numa homenagem ao mestre do semba e defensor da identidade cultural angolana

Foi num ambiente de verdadeiro reencontro familiar, marcado pela convivência entre diferentes gerações, pela coesão social e pela afirmação da identidade cultural angolana, que decorreu, no passado dia 28 de junho de 2026, mais uma edição do emblemático Caldo do Poeira, promovido pela Rádio Nacional de Angola (RNA).

Realizado no Espaço Prova d’Arte, no bairro Miramar, em Luanda, o evento prestou homenagem ao consagrado músico Carlos Lamartine, reconhecido como um dos maiores pilares da Música Popular Angolana e uma das figuras que melhor representa a riqueza do semba e das raízes culturais africanas.

Mais do que um concerto, a iniciativa transformou-se numa celebração da memória coletiva, da ancestralidade e da continuidade da cultura nacional, reafirmando Carlos Lamartine como um verdadeiro “imbondeiro” da música angolana — símbolo de longevidade, sabedoria, resistência e inspiração para várias gerações de artistas.

Um encontro entre gerações em defesa da cultura angolana

O ambiente vivido durante a homenagem refletiu a força agregadora da cultura angolana. Jovens, adultos e veteranos da música nacional partilharam o mesmo espaço num exercício de valorização da história artística do país.

A iniciativa evidenciou igualmente a importância do semba enquanto património cultural vivo, género musical que continua a afirmar-se em Angola e além-fronteiras, acompanhando o reconhecimento internacional que a música angolana tem conquistado em diversas latitudes do mundo.

Grandes vozes interpretaram o legado de Carlos Lamartine

A homenagem contou com atuações de Voto Gonçalves, Lulas da Paixão, Xinda Duia, Leonel Ngumba e Mister Kim, acompanhados pela Banda Movimento, que deu suporte instrumental às diferentes interpretações do repertório do homenageado.

Um dos momentos mais marcantes da noite foi a estreia da jovem cantora Xinda Duia no projeto Caldo do Poeira, interpretando um emocionante dueto com Carlos Lamartine, simbolizando a passagem do testemunho artístico entre gerações.

O encerramento ficou reservado ao próprio homenageado, que emocionou o público ao interpretar clássicos do seu vasto repertório, entre os quais o emblemático “Nvunda com Musseque”, reafirmando a vitalidade da sua obra e a ligação afetiva que mantém com diferentes públicos.

Carlos Lamartine: um património vivo da cultura nacional

Nascido em Benguela, a 29 de março de 1943, José Carlos Lamartine Salvador dos Santos Costa, artisticamente conhecido como Carlos Lamartine, é unanimemente reconhecido como um dos maiores pioneiros da Música Popular Angolana.

Cantor, compositor, percussionista, pedagogo e diplomata, a sua trajetória artística confunde-se com a própria história da construção da identidade cultural de Angola.

Ainda jovem mudou-se para Luanda, onde participou na fundação do grupo Os Kissueias do Ritmo, integrando posteriormente formações históricas como Águias Reais e Muloges do Ritmo, contribuindo decisivamente para a evolução da música nacional.

Música de intervenção e afirmação da identidade angolana

Ao longo da sua carreira, Carlos Lamartine destacou-se pela utilização do semba e de outros ritmos tradicionais como instrumentos de intervenção social, valorização da cultura nacional e afirmação da identidade angolana.

As suas composições abordam temas ligados à consciência social, à dignidade do povo, à independência e às transformações do país, tornando-se referências incontornáveis da música de intervenção em Angola.

Enquanto artista a solo, contou igualmente com o acompanhamento de conjuntos históricos como Os Kiezos e Os Merengues, protagonistas da chamada era de ouro da música angolana.

Uma obra que atravessa gerações

Entre os seus trabalhos mais marcantes destacam-se os álbuns “Angola Ano 1”, lançado em 1975, e “Frutos do Chão”, editado em 2004.

O álbum “Histórias de Casa Velha” recebeu o reconhecimento de Disco de Ouro, atribuído pela Associação da Indústria Fonográfica de Angola, consolidando o impacto e a relevância da sua produção artística.

Décadas depois do início da sua carreira, Carlos Lamartine continua ativo, inspirando músicos, investigadores e amantes da cultura angolana, sendo amplamente considerado um dos maiores guardiões da memória musical do país.

Espaço Prova d’Arte afirma-se como referência cultural em Luanda

A edição do Caldo do Poeira voltou igualmente a evidenciar o crescente protagonismo do Espaço Prova d’Arte, que se consolida como um dos principais centros de promoção das artes e da cultura na capital angolana.

O espaço tem acolhido regularmente concertos, lançamentos, exposições, tertúlias, espetáculos de poesia, teatro e diversas manifestações artísticas, tornando-se um importante ponto de encontro entre criadores, público e agentes culturais.

Com uma programação diversificada e uma crescente adesão do público, o Prova d’Arte reforça a sua posição como um dos mais dinâmicos palcos da vida cultural de Luanda.

Cultura como elo entre memória, identidade e futuro

A homenagem a Carlos Lamartine demonstrou que preservar a memória dos grandes mestres da música nacional é também investir no futuro das novas gerações.

Ao reunir artistas consagrados e jovens talentos, o Caldo do Poeira reafirma-se como um projeto de valorização do património musical angolano, promovendo o diálogo entre gerações e fortalecendo o sentimento de pertença e identidade nacional através da cultura.

Fonte: REDE NACIONAL | Reportagem PRESSdigi.

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