CULTURA & LITERATURA | LEGADO DE “MAFRANO” REFORÇA MEMÓRIA HISTÓRICA E IDENTIDADE BANTU
O embaixador de Angola na Namíbia, Pedro Mutindi, recebeu, na quarta-feira, em Windhoek, um exemplar do terceiro e último volume da colectânea póstuma Os Bantu na Visão de Mafrano, da autoria de Maurício Francisco Caetano, conhecido no meio literário e académico como “Mafrano”.
A entrega da obra foi feita por José Caetano, filho do autor, num gesto que simboliza a continuidade do legado intelectual de uma das figuras mais relevantes da investigação sobre a civilização bantu em Angola.
Distinguida com o Prémio Nacional de Cultura e Artes 2024, na categoria de Investigação em Ciências Humanas e Sociais, a colectânea é reconhecida pela sua importância histórica, antropológica e cultural no estudo das sociedades africanas.
Uma obra dedicada à memória e à ancestralidade africana
Com 327 páginas distribuídas em 18 capítulos, o terceiro volume encerra uma colectânea composta por 799 páginas reunidas em três tomos, abordando temas ligados à civilização bantu, espiritualidade, organização social, tradição política e identidade cultural africana.
A publicação reúne textos produzidos entre 1947 e 1982, incluindo crónicas, ensaios, relatos históricos e estudos culturais que documentam hábitos, crenças e formas de organização dos povos bantu.
Entre os temas abordados destacam-se o uso do telégrafo tradicional Ngolokele, a escrita ancestral africana, os matrimónios tradicionais, os topónimos bantu, as lendas populares, além de reflexões sobre a morte, a origem do homem e os sistemas tradicionais de poder.
Investigação africana com dimensão internacional
A obra de “Mafrano” transcende o espaço académico angolano ao estabelecer diálogos entre a tradição bantu e outras civilizações do mundo, incluindo referências comparativas às culturas greco-romanas, europeias, asiáticas e americanas.
Ao longo do seu espólio literário, Maurício Francisco Caetano dialoga com autores internacionais como Franz Boas e Raúl Ruiz de Asúa Altuna, articulando perspectivas da Antropologia, Arqueologia e Direito Costumeiro africano.
A colectânea já foi apresentada em diversos países, entre os quais Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Portugal e Alemanha, além de universidades brasileiras nas cidades de Curitiba e Rio de Janeiro.
Percurso intelectual de uma referência da literatura e investigação angolana
Nascido a 24 de Dezembro de 1916, na cidade do Dondo, Maurício Francisco Caetano iniciou actividade literária em 1947 como colaborador do jornal Angola Norte, em Malanje.
Posteriormente, integrou importantes espaços de produção intelectual angolana, colaborando com publicações como Revista Angola, Farolim, O Apostolado, O Angolense e Tribuna dos Musseques, ao lado de figuras históricas como Agostinho Neto e Dom Alexandre do Nascimento.
Além da produção literária, desempenhou funções no sector público angolano, chegando ao cargo de director nacional no Ministério das Finanças após a Independência de Angola, em 1975.
Foi igualmente membro fundador da União dos Escritores Angolanos e docente de Língua Portuguesa e Filosofia em várias instituições de ensino do país.
Literatura como instrumento de preservação identitária
A colectânea Os Bantu na Visão de Mafrano reafirma a importância da literatura e da investigação científica na preservação da memória colectiva africana e na valorização das identidades culturais ancestrais.
Ao recuperar narrativas, saberes tradicionais e reflexões históricas sobre os povos bantu, a obra consolida-se como referência essencial para investigadores, académicos e novas gerações interessadas na história cultural africana.
Num contexto de crescente valorização das epistemologias africanas, o legado de “Mafrano” permanece actual enquanto contributo para a construção de uma consciência cultural enraizada na memória e na ancestralidade.
Fonte: REDE NACIONAL | JORNAL DE ANGOLA
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao

Deixe um comentário