Curso de Antropologia Africana Aplicada reúne saberes, mestres e visões estratégicas para repensar identidade, economia, política e família no contexto do renascimento africano
GRANDE REPORTAGEM | PRESS.DIGI
Num tempo em que África reconfigura o seu lugar no mundo, Luanda acolhe uma das mais profundas iniciativas de reflexão intelectual contemporânea: o Iº,IIº, IIIº e IVº modulos do Curso de Antropologia Africana Aplicada – KIMUNTU, promovido pela ARHEA, em parceria com a ANKHYO e instituições congéneres.
Realizado entre a Livraria Cheikh Anta Diop e a Casa de Cultura Ubuntu, o curso propõe uma imersão multidisciplinar nas bases estruturantes do pensamento africano, reunindo académicos, artistas, investigadores e cidadãos interessados na reconstrução da consciência histórica e civilizacional africana.

UMA PROPOSTA DE RUPTURA E RECONSTRUÇÃO
Mais do que um ciclo formativo, o KIMUNTU apresenta-se como um movimento de ruptura epistemológica, desafiando paradigmas eurocêntricos e propondo uma releitura africana das ciências sociais, humanas e políticas.
“O acaso não existe na longa tradição africana… é fruto da falta de preparação para compreender a própria história.”
— Mawete Makisosila
A iniciativa estrutura-se em quatro módulos fundamentais, cada um abordando dimensões estratégicas para o futuro de Angola e do continente africano.

MÓDULO I — CONCEITO E LINGUAGEM: A RAIZ DO PENSAMENTO
A Antropologia Conceptual Africana abre o percurso com uma análise crítica sobre a linguagem enquanto instrumento de poder e construção de realidade.
Aqui, questiona-se a imposição de conceitos externos que, ao longo da história, moldaram negativamente a percepção das instituições africanas.
O módulo propõe uma reconexão com a matriz linguística africana como base para a reconstrução científica, cultural e identitária.

MÓDULO II — ECONOMIA: ENTRE TRADIÇÃO E FUTURO
A Antropologia Económica Africana introduz uma visão estratégica para o desenvolvimento de Angola entre 2025 e 2075, defendendo modelos endógenos inspirados nas práticas ancestrais.
Destaca-se a valorização de sistemas informais, como o modelo da zungueira, como potenciais pilares de uma economia sustentável e inclusiva.

MÓDULO III — POLÍTICA: ENTRE HERANÇA E SOBERANIA
Neste módulo, a reflexão incide sobre os modelos políticos africanos pré-coloniais e contemporâneos, propondo uma análise crítica da democracia importada.
A abordagem coloca em confronto sistemas tradicionais africanos com estruturas herdadas do colonialismo, levantando questões sobre legitimidade, identidade e governança.

MÓDULO IV — FAMÍLIA: A BASE DA SOCIEDADE AFRICANA
A Antropologia da Família mergulha nas dinâmicas sociais e culturais do núcleo familiar africano, abordando temas como casamento, parentalidade e conflitos contemporâneos.
O módulo propõe uma revalorização da instituição familiar à luz da tradição africana, sem ignorar os desafios da modernidade.
“A evolução da África exige uma civilização construída por homens e mulheres lado a lado.”
— Jacqueline Ki-Zerbo

OS MESTRES DO SABER AFRICANO
O curso é conduzido por figuras de referência no pensamento africano contemporâneo:
Mawete Makisosila — antropólogo, historiador e sociolinguista, discípulo de Cheikh Anta Diop e defensor de uma ciência africana autónoma, com vasta produção académica e intervenção internacional.
Ntunziama Kumpemba Elimbondo (Filipe Vidal) — historiador, antropólogo, artista plástico e pensador panafricanista, com forte intervenção na investigação cultural e artística em Angola.
Ambos representam uma geração de intelectuais comprometidos com a reconstrução da narrativa africana a partir de dentro.

BASES DO SABER: REFERÊNCIAS E INSPIRAÇÕES
O curso fundamenta-se em obras e pensamentos de grandes nomes da intelectualidade africana e afrocentrada, como:
- Cheikh Anta Diop
- Théophile Obenga
- Marimba Ani
- Amos Wilson
- Walter Rodney
- Kabengele Munanga
- Boubakar Namory Keita
Estas referências consolidam uma base teórica que sustenta o renascimento do pensamento africano contemporâneo.

FORMAÇÃO PARA TODOS: UMA CONVOCATÓRIA ABERTA
Dirigido a académicos, artistas, activistas, estudantes e cidadãos em geral, o curso assume-se como um espaço inclusivo de aprendizagem e transformação.
A proposta é clara: reaprender África, a partir de África.

NOTA EDITORIAL | PRESS.DIGI
Num contexto global onde as narrativas africanas continuam, muitas vezes, a ser contadas a partir de olhares externos, iniciativas como o KIMUNTU representam um ponto de viragem.
Esta não é apenas uma formação — é um acto de afirmação identitária.
Ao promover uma leitura afrocentrada da história, da economia, da política e da cultura, o curso contribui para o despertar de uma consciência colectiva mais crítica, autónoma e alinhada com as raízes do continente.
O impacto social desta iniciativa reside na sua capacidade de formar cidadãos mais conscientes, preparados para intervir activamente na construção de uma África que se reconhece, se valoriza e se projeta como protagonista do seu próprio destino.
É neste espaço de reflexão que se constrói o futuro — com memória, com ciência e com identidade.
FONTE: Reportagem PRESS | Kikalakalu Kia Dibya
ALINHAMENTO EDITORIAL: Classe Cultura | História & Antropologia Africana – Pressdigi



















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