Mawete Makisosila — antropólogo, historiador e sociolinguista, discípulo de Cheikh Anta Diop e defensor de uma ciência africana autónoma, com vasta produção académica e intervenção internacional. Ntunziama Kumpemba Elimbondo (Filipe Vidal) — historiador, antropólogo, artista plástico e pensador panafricanista, com forte intervenção na investigação cultural e artística em Angola.

KIMUNTU: O Despertar da Consciência Africana no Coração de Luanda

Curso de Antropologia Africana Aplicada reúne saberes, mestres e visões estratégicas para repensar identidade, economia, política e família no contexto do renascimento africano

GRANDE REPORTAGEM | PRESS.DIGI

Num tempo em que África reconfigura o seu lugar no mundo, Luanda acolhe uma das mais profundas iniciativas de reflexão intelectual contemporânea: o Iº,IIº, IIIº e IVº modulos do Curso de Antropologia Africana Aplicada – KIMUNTU, promovido pela ARHEA, em parceria com a ANKHYO e instituições congéneres.

Realizado entre a Livraria Cheikh Anta Diop e a Casa de Cultura Ubuntu, o curso propõe uma imersão multidisciplinar nas bases estruturantes do pensamento africano, reunindo académicos, artistas, investigadores e cidadãos interessados na reconstrução da consciência histórica e civilizacional africana.


UMA PROPOSTA DE RUPTURA E RECONSTRUÇÃO

Mais do que um ciclo formativo, o KIMUNTU apresenta-se como um movimento de ruptura epistemológica, desafiando paradigmas eurocêntricos e propondo uma releitura africana das ciências sociais, humanas e políticas.

“O acaso não existe na longa tradição africana… é fruto da falta de preparação para compreender a própria história.”
Mawete Makisosila

A iniciativa estrutura-se em quatro módulos fundamentais, cada um abordando dimensões estratégicas para o futuro de Angola e do continente africano.


MÓDULO I — CONCEITO E LINGUAGEM: A RAIZ DO PENSAMENTO

A Antropologia Conceptual Africana abre o percurso com uma análise crítica sobre a linguagem enquanto instrumento de poder e construção de realidade.

Aqui, questiona-se a imposição de conceitos externos que, ao longo da história, moldaram negativamente a percepção das instituições africanas.

O módulo propõe uma reconexão com a matriz linguística africana como base para a reconstrução científica, cultural e identitária.


MÓDULO II — ECONOMIA: ENTRE TRADIÇÃO E FUTURO

A Antropologia Económica Africana introduz uma visão estratégica para o desenvolvimento de Angola entre 2025 e 2075, defendendo modelos endógenos inspirados nas práticas ancestrais.

Destaca-se a valorização de sistemas informais, como o modelo da zungueira, como potenciais pilares de uma economia sustentável e inclusiva.


MÓDULO III — POLÍTICA: ENTRE HERANÇA E SOBERANIA

Neste módulo, a reflexão incide sobre os modelos políticos africanos pré-coloniais e contemporâneos, propondo uma análise crítica da democracia importada.

A abordagem coloca em confronto sistemas tradicionais africanos com estruturas herdadas do colonialismo, levantando questões sobre legitimidade, identidade e governança.


MÓDULO IV — FAMÍLIA: A BASE DA SOCIEDADE AFRICANA

A Antropologia da Família mergulha nas dinâmicas sociais e culturais do núcleo familiar africano, abordando temas como casamento, parentalidade e conflitos contemporâneos.

O módulo propõe uma revalorização da instituição familiar à luz da tradição africana, sem ignorar os desafios da modernidade.

“A evolução da África exige uma civilização construída por homens e mulheres lado a lado.”
Jacqueline Ki-Zerbo


OS MESTRES DO SABER AFRICANO

O curso é conduzido por figuras de referência no pensamento africano contemporâneo:

Mawete Makisosila — antropólogo, historiador e sociolinguista, discípulo de Cheikh Anta Diop e defensor de uma ciência africana autónoma, com vasta produção académica e intervenção internacional.

Ntunziama Kumpemba Elimbondo (Filipe Vidal) — historiador, antropólogo, artista plástico e pensador panafricanista, com forte intervenção na investigação cultural e artística em Angola.

Ambos representam uma geração de intelectuais comprometidos com a reconstrução da narrativa africana a partir de dentro.


BASES DO SABER: REFERÊNCIAS E INSPIRAÇÕES

O curso fundamenta-se em obras e pensamentos de grandes nomes da intelectualidade africana e afrocentrada, como:

  • Cheikh Anta Diop
  • Théophile Obenga
  • Marimba Ani
  • Amos Wilson
  • Walter Rodney
  • Kabengele Munanga
  • Boubakar Namory Keita

Estas referências consolidam uma base teórica que sustenta o renascimento do pensamento africano contemporâneo.


FORMAÇÃO PARA TODOS: UMA CONVOCATÓRIA ABERTA

Dirigido a académicos, artistas, activistas, estudantes e cidadãos em geral, o curso assume-se como um espaço inclusivo de aprendizagem e transformação.

A proposta é clara: reaprender África, a partir de África.


NOTA EDITORIAL | PRESS.DIGI

Num contexto global onde as narrativas africanas continuam, muitas vezes, a ser contadas a partir de olhares externos, iniciativas como o KIMUNTU representam um ponto de viragem.

Esta não é apenas uma formação — é um acto de afirmação identitária.

Ao promover uma leitura afrocentrada da história, da economia, da política e da cultura, o curso contribui para o despertar de uma consciência colectiva mais crítica, autónoma e alinhada com as raízes do continente.

O impacto social desta iniciativa reside na sua capacidade de formar cidadãos mais conscientes, preparados para intervir activamente na construção de uma África que se reconhece, se valoriza e se projeta como protagonista do seu próprio destino.

É neste espaço de reflexão que se constrói o futuro — com memória, com ciência e com identidade.


FONTE: Reportagem PRESS | Kikalakalu Kia Dibya
ALINHAMENTO EDITORIAL: Classe Cultura | História & Antropologia Africana – Pressdigi