LÍNGUA EM MOVIMENTO: PAULINO SOMA DEFENDE ENSINO AJUSTADO À REALIDADE ANGOLANA

Linguista alerta para conflito de normas e propõe uma abordagem inclusiva e dinâmica no ensino do português em Angola

A língua como organismo vivo

O linguista Paulino Soma defendeu que a língua deve ser entendida como um elemento dinâmico, em constante transformação, capaz de se adaptar às exigências sociais e culturais.

A reflexão foi apresentada durante mais uma edição das Conversas da Academia à Quinta-feira, promovida pela Academia Angolana de Letras, onde abordou o tema “Ensino do português em Angola: desafios normativos e terminológicos”, sob moderação do sociólogo Adérito Manuel.

Para o especialista, comunicar é unir, reforçando que a linguagem deve servir como ponte de convergência e não de separação.


Ensino do português: entre desafios e desajustes

Paulino Soma considera que o ensino da língua portuguesa em Angola enfrenta fragilidades estruturais, classificando-o como “sofrível”.

Entre os principais desafios apontados, destaca-se a inadequação na formação dos professores, cujo perfil não responde às exigências da realidade sociolinguística do país.

Segundo o linguista, muitos docentes são preparados com base numa norma europeia idealizada, sem ferramentas pedagógicas que considerem o português praticado em Angola, gerando um evidente conflito de normas nas salas de aula.


Bilinguismo e valorização das línguas nacionais

O autor de “A Crise Normativa do Português em Angola” defende a necessidade de repensar a formação docente, capacitando os professores para lidar com o bilinguismo e o contacto entre o português e as línguas bantu.

Sublinha que um ensino excessivamente normativo e dogmático pode penalizar o aluno, ao invés de compreender e valorizar a diversidade linguística como riqueza cultural.


Política linguística e risco de perda cultural

No plano institucional, Paulino Soma aponta a existência de uma indefinição normativa no país, o que fragiliza a consolidação de uma política linguística coerente.

Alertou ainda para o risco de desaparecimento de algumas línguas nacionais, lembrando que “uma língua se torna menos robusta à medida que perde falantes”, defendendo uma visão colectiva da identidade linguística:
“Uma língua não vai ser mais minha, se for menos nossa.”


Continuidade do debate académico

As Conversas da Academia à Quinta-feira prosseguem no dia 16 deste mês, às 19h00, com a participação da pedagoga Helena Araújo e Sá, que abordará o tema “Travessias entre línguas: a intercompreensão como prática de hospitalidade”, sob moderação da linguista Jeanine Silveira.


Nota Editorial | PRESSdigi – Cultura & Letras

A reflexão sobre a língua em Angola transcende o campo académico e inscreve-se no coração da identidade nacional. O posicionamento de Paulino Soma revela a urgência de reconciliar norma e realidade, num país onde múltiplas línguas coexistem e constroem o pensamento colectivo.

Num contexto pós-colonial e multicultural, insistir num modelo linguístico único pode significar a negação de vozes, saberes e pertenças. Por outro lado, reconhecer a dinâmica da língua é aceitar que a identidade se constrói em movimento.

A valorização das línguas nacionais, aliada a um ensino mais inclusivo do português, não representa ruptura, mas sim evolução — um caminho necessário para garantir coesão social, inclusão e preservação da memória colectiva.


Fonte: Jornal de Angola
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao


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