Resolução liderada por Gana expõe feridas históricas, divide potências e reforça a luta por justiça para África e a diáspora
UM MARCO HISTÓRICO NA MEMÓRIA GLOBAL
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, a 25 de Março, uma resolução histórica que reconhece a escravatura transatlântica como o crime mais grave contra a humanidade, num momento simbólico que coincide com o Dia Internacional de Memória das Vítimas da Escravidão.
A proposta, liderada pelo Gana e apoiada por mais de 120 países, incluindo o Brasil, representa uma das posições mais fortes já assumidas pela ONU sobre o impacto global da escravidão. Ainda que não tenha carácter juridicamente vinculativo, o documento abre caminho para discussões sobre reparações, pedidos de desculpas e devolução de património cultural.
VOZES DE ÁFRICA RECLAMAM JUSTIÇA HISTÓRICA
Entre as declarações mais marcantes, o Presidente do Gana, John Dramani Mahama, sublinhou a dimensão moral e histórica da decisão:
“Existe uma obrigação moral inquestionável de honrar aqueles que resistiram à escravidão e lembrar os milhões que foram desumanamente arrancados das suas terras.”
O líder ganês reforçou ainda que:
“As consequências destes crimes continuam a manifestar-se em desigualdades estruturais, discriminação racial e disparidades económicas.”
Para Mahama, reconhecer a escravatura como o mais grave crime contra a humanidade não é um acto de divisão, mas sim de coragem histórica e reconciliação global.
DIVISÕES POLÍTICAS E RESISTÊNCIA INTERNACIONAL
Apesar do amplo apoio, a resolução enfrentou oposição de países como Estados Unidos, Israel e Argentina, enquanto várias nações europeias optaram pela abstenção.
Os opositores argumentam que a classificação pode gerar hierarquização de crimes contra a humanidade, enquanto países africanos e aliados defendem que a magnitude, duração e impacto sistémico da escravatura justificam plenamente o reconhecimento.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou a gravidade histórica:
“O tráfico transatlântico de ESCRAVIZADOS (escravos) atingiu o âmago da existência humana, separando famílias e destruindo comunidades.”
UM LEGADO DE DOR E RESISTÊNCIA
Entre os séculos XVI e XIX, mais de 12 a 15 milhões de africanos foram forçados a atravessar o Atlântico em condições desumanas. Milhões morreram durante a travessia, enquanto outros foram submetidos a sistemas de exploração que moldaram profundamente a economia e a geopolítica mundial.
A resolução também destaca a necessidade de devolução de artefactos culturais aos seus países de origem, reforçando o direito à memória e à identidade.
NOTA EDITORIAL | PRESSDIGI | SOCIEDADE GLOBAL
A decisão da ONU representa mais do que um acto simbólico — é um reposicionamento da narrativa histórica global, onde África deixa de ser apenas vítima do passado para se afirmar como voz activa na construção da justiça internacional.
O impacto social desta resolução reside na sua capacidade de reabrir debates fundamentais sobre desigualdade, racismo estrutural e reparação histórica. Ao reconhecer oficialmente a dimensão da escravatura, cria-se uma base moral para políticas públicas mais inclusivas e conscientes.
Culturalmente, este momento reforça a necessidade de resgatar identidades, preservar memórias e valorizar as contribuições africanas para o mundo contemporâneo. A devolução de património e o reconhecimento das narrativas africanas tornam-se passos essenciais para a reconstrução de uma história mais equilibrada.
Historicamente, esta resolução marca uma viragem: o passado deixa de ser apenas recordado e passa a ser reivindicado como elemento activo na redefinição do futuro.
Para países como Angola, cuja história está profundamente ligada a este período, abre-se uma oportunidade estratégica para fortalecer a educação histórica, a diplomacia cultural e o posicionamento no debate global sobre justiça e desenvolvimento.
FONTE: Business Insider Africa, ONU, DW
Alinhamento Editorial – Classe SOCIEDADE GLOBAL: PRESSdigi.ao

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