Partida de Zé Manico deixa legado marcante na história do semba e da música angolan

CULTURA NACIONAL & MEMÓRIA MUSICAL

Voz emblemática dos Kiezos despede-se, mas permanece viva no património cultural de Angola

A música angolana encontra-se de luto com o falecimento do músico e compositor Manuel João Neto, artisticamente conhecido como Zé Manico, ocorrido na tarde de quarta-feira, em Luanda, aos 62 anos de idade. Reconhecido como uma das vozes mais marcantes do semba contemporâneo, o artista deixa um legado construído ao longo de mais de quatro décadas de dedicação à cultura nacional.

A informação foi confirmada por Gegé Faria, companheiro de longa data nos Kiezos, que manifestou profunda consternação perante a inesperada partida do artista, recordando que, na véspera, Zé Manico participou normalmente nos ensaios do grupo, demonstrando entusiasmo e boa disposição.

Um percurso dedicado à valorização da música angolana

Considerado uma das referências da interpretação musical em Angola, Zé Manico assumiu, durante mais de uma década, a posição de vocalista principal dos Kiezos, uma das mais emblemáticas formações da música popular angolana.

Ao longo da sua trajectória artística, participou em diversos projectos de valorização do património musical nacional, entre os quais Muzonguê da Tradição, Caldo do Poeira e Show do Mês, iniciativas que contribuíram para preservar e promover o semba e outros géneros tradicionais junto das novas gerações.

Em 2010 lançou o álbum “Senda do Semba”, trabalho que consolidou ainda mais a sua ligação à defesa e divulgação dos ritmos identitários angolanos.

Uma voz construída nos bairros e fortalecida nos palcos

A carreira de Zé Manico teve início nas tradicionais turmas culturais dos bairros de Luanda, espaço onde muitos artistas nacionais deram os primeiros passos.

Posteriormente integrou formações como Os Fachos, Zimbo e Gengibre, antes de alcançar um dos momentos mais destacados da sua carreira ao juntar-se aos Kiezos, grupo onde consolidou uma identidade vocal reconhecida pelo público e pela crítica.

A sua interpretação característica, aliada à autenticidade e ao respeito pelas raízes culturais angolanas, transformou-o numa das figuras mais respeitadas do panorama musical nacional.

Classe artística presta homenagem

A União Nacional dos Artistas e Compositores – Sociedade de Autor (UNAC-SA) manifestou profundo pesar pela perda do músico, destacando o seu contributo para o fortalecimento da música angolana e o seu compromisso permanente com a valorização da cultura nacional.

Em nota de condolências, a instituição recordou que Zé Manico foi membro da organização durante mais de três décadas, período em que demonstrou profissionalismo, dedicação e amor pela arte.

O secretário-geral da UNAC-SA, Diogo Sebastião, considerou a sua partida uma perda significativa para a classe artística, sublinhando, contudo, que o legado deixado pelo cantor continuará a servir de inspiração para futuras gerações de músicos, compositores e intérpretes angolanos.

Património vivo da identidade cultural angolana

Mais do que um cantor, Zé Manico foi um guardião da memória musical angolana, contribuindo para manter viva a riqueza do semba e das expressões culturais que moldam a identidade do país.

A sua voz permanecerá associada a uma importante fase da música nacional, sendo lembrada como símbolo de resistência cultural, autenticidade artística e profundo amor por Angola.

Enquanto o país aguarda informações sobre as cerimónias fúnebres, familiares, amigos, admiradores e agentes culturais prestam homenagem a um artista cuja obra continuará a ecoar nos palcos, nas rádios e na memória colectiva dos angolanos.

Fonte: REDE NACIONAL | Jornal de Angola
Alinhamento Editorial: PRESSdigi.ao


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