“Sem Título” leva Maria Eugénia Neto ao palco num diálogo entre memória, poesia e Angola contemporânea

Lucengomono Artes apresenta peça no 11.º CIT, cruzando textos de Maria Eugénia Neto, Agostinho Neto, António Jacinto e Otília Adriano

Luanda – O projecto Lucengomono Artes apresentou, na quinta-feira, no Teatro Elinga, em Luanda, a peça “Sem Título”, espectáculo integrado na programação da 11.ª edição do Circuito Internacional de Teatro (CIT) e construído a partir do universo literário e da trajectória da escritora Maria Eugénia Neto.

A proposta cénica parte de um texto inédito da autora, intitulado “Que dizer-te meu amor”, estabelecendo igualmente uma relação com excertos do conto “Quem traiu Mandume”, de Diogo Joaquim Manuel “Barbosinha”, incluído na obra Contos de Serão.

Memória literária transforma-se em dramaturgia

Segundo a sinopse do espectáculo, a dramaturgia incorpora ainda fragmentos poéticos de Agostinho Neto, António Jacinto e Otília Adriano, construindo uma composição contemporânea que procura revisitar experiências, inquietações e questões presentes no quotidiano dos povos em Angola.

A peça não se apresenta como uma biografia convencional de Maria Eugénia Neto. Em vez disso, propõe uma viagem por memórias, textos e contextos associados à escritora, estabelecendo pontes com problemas que continuam a marcar a sociedade angolana.

Literatura, política, cultura, realidade social e dificuldades enfrentadas pelos agentes culturais cruzam-se numa narrativa que aproxima diferentes tempos históricos.

Palavra, corpo e som constroem a narrativa

Em “Sem Título”, a palavra não surge isoladamente. Som, gesto, corpo, voz e objectos cénicos participam igualmente na construção da narrativa.

A linguagem do espectáculo percorre temas como vida, morte, ressurreição, ancestralidade, medo e silêncio, colocando em diálogo realidade e imaginação.

A utopia e a esperança aparecem como forças associadas a uma história de libertação e à procura de melhores condições de vida para a sociedade, com particular atenção aos desafios enfrentados pelos agentes culturais.

Um espectáculo entre passado e presente

A proposta do Lucengomono Artes procura fazer da memória um instrumento para interpretar o presente.

Ao recuperar textos e referências ligadas à produção literária e política angolana, “Sem Título” estabelece uma relação entre acontecimentos históricos, experiências individuais e questões sociais contemporâneas.

A dramaturgia procura, assim, evitar uma leitura exclusivamente memorialista e construir uma experiência cénica na qual o passado dialoga directamente com os desafios do presente.

Otília Adriano enfrenta desafio de interpretar um legado

Para a actriz Otília Adriano, interpretar personagens relacionadas com o universo de Maria Eugénia Neto e recitar textos da escritora representou um dos maiores desafios do processo criativo.

A presença da actriz acrescenta ao espectáculo uma dimensão de interpretação e mediação da memória literária, transformando os textos em experiência performativa diante do público.

Três meses de preparação

O director artístico do Lucengomono Artes, Francisco Makiêsse, explicou que foram necessários cerca de três meses de preparação para levar a peça ao palco.

O processo criativo desenvolveu-se em torno de dois eixos: a análise dos textos e da trajectória de Maria Eugénia Neto e a reflexão sobre problemas que continuam a marcar a realidade social e cultural angolana.

A opção por cruzar memória e contemporaneidade tornou-se, desta forma, uma das bases da construção dramatúrgica.

Elenco e equipa artística

“Sem Título” conta com Adriano Atenas, Otília Adriano e Evandro Neto no elenco.

A direcção, dramaturgia e encenação são de Francisco Makiêsse, enquanto a produção executiva está a cargo de Patrícia Rodrigues e Nochy Malungo.

A conjugação das diferentes áreas de criação procura garantir uma linguagem cénica multidisciplinar, na qual literatura, interpretação, som e movimento participam de uma mesma narrativa.

Teatro como lugar de memória e reflexão

A apresentação no XI Circuito Internacional de Teatro reforça o papel do palco como espaço de encontro entre literatura, memória, identidade e reflexão social.

“Sem Título” utiliza o universo de Maria Eugénia Neto como ponto de partida para uma criação que procura falar tanto do passado como dos desafios que permanecem presentes na sociedade angolana.

Ao levar essas referências para o palco, o Lucengomono Artes propõe uma experiência em que a memória literária se transforma em corpo, voz e presença, aproximando diferentes gerações através do teatro.


Fonte: REDE NACIONAL | Jornal de Angola | PressReader

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