Cultura & Arte
Luanda – O emblemático Palácio de Ferro voltou a afirmar-se como um dos grandes palcos da cultura nacional ao acolher, nos dias 14 e 15 de março, a 5.ª edição do Festival das Bandas, um encontro musical que reuniu mais de duas mil pessoas em duas noites de celebração da identidade sonora angolana.
O evento reuniu oito formações musicais – Nguami Maka, Banda Weya, Banda Duia, Jovens do Prenda, Banda Akapaná, Banda AR Amigos do Roxane, Banda Maravilha e Conjunto Dizu Dietu – numa programação que percorreu diferentes gerações e estilos da música angolana, com destaque para o semba, a rebita e outras expressões tradicionais.
A abertura das atividades foi marcada por um ambiente festivo que colocou o público em sintonia com a essência cultural do evento. Durantes as apresentações musicais, o grupo carnavalesco União Kiela, sob orientação da comandante Maravilha dos Santos, trouxe para o palco a energia contagiante do Carnaval de Luanda. As bailarinas incendiaram o recinto ao som do tema “História de Dionísio da Rocha”, composição de Zézinho Noy, transportando o público para o universo rítmico do semba carnavalesco.
Segunda noite: homenagem, memória e continuidade
O segundo dia do festival iniciou com a atuação da Banda Akapaná, liderada pelo músico Acácio, figura reconhecida na preservação da música tradicional angolana. O grupo conduziu o público por uma viagem sonora entre clássicos e composições populares como “Kumbi Njenda”, associada aos músicos Namanga e Paulino Loureiro.

Um dos momentos mais emotivos da noite foi protagonizado pela Banda AR – Amigos de Roxane, dirigida pelo músico Wando Moreira, guitarra baixo. A formação conta com a seguinte composição:Teclas :Genial Pro; Bateria:Jack Nsaka; Guitarra ritmo e solo: Nsangu Za Nza; Voz: Kelson Jacinto. Juntos prestaram homenagem ao malogrado artista Roxane Fernandez, figura marcante da música angolana.

O intérprete Kelson Jacinto, conhecido pela participação no concurso Unitel Estrelas ao Palco, assumiu a responsabilidade de dar voz às canções associadas ao legado de Roxane. A presença da família do músico e a reação nostálgica do público transformaram o momento num tributo carregado de emoção.
Reconhecimentos e homenagens
Durante o festival houve também espaço para homenagens a figuras marcantes da música angolana.
Um dos momentos mais simbólicos foi a entrega da Carteira Profissional de Artista ao músico e produtor Marito Furtado, gesto oficializado pelo presidente da comissão responsável pelo documento, Maneco Vieira Dias.

Segundo explicou o responsável, a carteira incorpora um código QR que reúne informações artísticas dos profissionais do sector, constituindo um instrumento institucional de reconhecimento da classe artística angolana.
Na ocasião, Marito Furtado recordou o legado do seu irmão mais velho, Rui Furtado, considerado um dos pioneiros na introdução da bateria na música moderna angolana, especialmente no semba. O músico destacou ainda a continuidade do legado familiar representado também pelo sobrinho Hélio Furtado.
Outro momento de grande simbolismo ocorreu durante a atuação da Banda Maravilha, quando os integrantes prestaram homenagem ao seu mais velho e líder histórico, Moreira Filho.

Fundada em 1991, a banda mantém-se como uma das maiores de referência da música popular angolana. A direção musical é conduzida por Carlitos Vieira Dias, tendo como integrantes nomes como Mário Furtado (bateria), Miqueas (teclados) e a cantora Djanira Mercedes, única voz feminina da formação.
Entre as personalidades presentes ao longo do festival destacou-se também o sociólogo, escritor e antigo ministro da Cultura Boaventura Cardoso, frequentemente citado como uma das referências institucionais na valorização da política cultural angolana.

Encerramento em clima de celebração
O fecho da 5.ª edição ficou a cargo do Conjunto Dizu Dietu, liderado pelo músico Legalize (Bernardo de Figueiredo), cuja versatilidade transita entre o semba tradicional e o reggae angolano.
A atuação final transformou o recinto numa grande celebração coletiva, com o público, os músicos e os integrantes da União Kiela a partilharem a pista de dança num ambiente de confraternização que refletiu a força agregadora da música.
Ao longo de todo o evento, a condução das apresentações esteve a cargo do apresentador e locutor angolano Herlander Glenoide, que garantiu a dinâmica e ligação entre os diferentes momentos do festival.

Olhar crítico – Kikalakalu Kiadibya
Para a redação do PRESS.digi, a 5.ª edição do Festival das Bandas demonstrou algo essencial: a música angolana continua a ser um dos pilares mais sólidos da identidade cultural do país.
Mais do que um simples espetáculo, o festival revelou-se um verdadeiro encontro entre gerações, onde mestres consagrados e novos talentos partilham o mesmo palco e a mesma missão – preservar e reinventar a musicalidade angolana.
A presença constante de grupos carnavalescos, bandas tradicionais e formações contemporâneas mostrou que o semba e os ritmos que dele derivam continuam a ser a espinha dorsal da cultura popular urbana de Luanda.
Num tempo em que a globalização tende a uniformizar linguagens culturais, eventos como o Festival das Bandas recordam que a autenticidade é o maior património de um povo. Cada acorde, cada passo de dança e cada voz que ecoou no Palácio de Ferro reafirmou a vitalidade de uma herança que continua a conquistar novos públicos dentro e fora de Angola.
A mensagem que fica é clara: quando a música angolana se reúne em torno das suas raízes, o país inteiro dança ao mesmo compasso.

Primeira noite: raízes e juventude em diálogo
A programação musical teve início com a atuação do conjunto Nguami Maka, que abriu o festival com a emblemática canção “Muxima”, clássico do histórico grupo Ngola Ritmos. A interpretação trouxe uma viagem à memória musical angolana, evocando os anos de ouro da música nacional.
O grupo prosseguiu com composições próprias como “Ngana Nzambi”, “Ditadi” e “Santana”, num repertório que reforçou a ligação entre tradição e contemporaneidade.
Seguiu-se a Banda Weya, cuja performance foi conduzida pela vocalista Chinda Duia, que encantou o público com interpretações de clássicos do cancioneiro angolano, celebrando a classe do semba de raiz.
O terceiro momento da noite ficou a cargo da Banda Duia, formação composta pelos irmãos Pirica Duia, Jandaia Duia, Mara Duia e Bebé Duia, acompanhados nas tumbas pelo mestre Chiquinho. Com forte identidade instrumental, o grupo apresentou um espetáculo marcado pela harmonia entre guitarra, baixo e cavaquinho, demonstrando a continuidade de uma linhagem musical que honra a tradição angolana.
O encerramento do primeiro dia coube ao histórico conjunto Jovens do Prenda, hoje também carinhosamente apelidados de “Os Jovitos”. A condução vocal esteve a cargo de Tony do Fumo Júnior, uma das vozes que tem mantido viva a herança do semba tradicional. A atuação transformou o espaço numa grande roda de dança e confraternização.


























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