Luanda – Entre ruas, becos e ruelas carregadas de história, o bairro do Prenda voltou a afirmar-se como um dos mais emblemáticos berços culturais da capital angolana. No âmbito de uma iniciativa promovida pelo Prova d’Art, realizou-se recentemente um roteiro turístico-cultural comunitário, que reuniu moradores, artistas, investigadores e profissionais da comunicação social numa viagem pela memória musical e social do bairro.
A atividade, integrada no programa da Passeata Cultural ao Prenda, contou com a coordenação de Herberto Xá‑Kimona Agostinho e o envolvimento de figuras históricas da comunidade, entre as quais o João Rocha, João Sabalo, Kota António Rosa, Adão Filipe, Kota Kituto Nelson do Nascimento e o Kota Tony Fernandes. O objetivo central foi revisitar espaços simbólicos do bairro e resgatar histórias ligadas à origem de uma das formações musicais mais representativas da cultura urbana de Luanda: o grupo Jovens do Prenda.

Um roteiro pela história do bairro
O percurso teve início por volta das 14h30, junto ao antigo supermercado Flor do Prenda, ponto de encontro onde visitantes e moradores foram recebidos pelo guia turístico e apresentador João Rocha.
Na ocasião, o assistente João Sabalo partilhou uma breve contextualização sobre o surgimento dos Jovens do Prenda, destacando o papel do bairro na formação de vários músicos e artistas que marcaram gerações da música angolana.
A partir deste ponto, a caravana seguiu pelas ruas do bairro num mini-autocarro, transformando o passeio numa verdadeira aula de história ao ar livre. Em cada paragem, os “kotas” presentes partilhavam memórias e episódios marcantes ligados à evolução cultural do Prenda.
O primeiro ponto simbólico foi o Chafariz do Dondo, local onde os participantes tiveram contacto com familiares de alguns dos fundadores dos Jovens do Prenda e conheceram a sede inicial do grupo, espaço onde começaram os primeiros ensaios da banda.
Seguiu-se a passagem pelo Clube Bela Vista Futebol Clube, espaço tradicional de convivência comunitária. Próximo dali situava-se a casa da senhora Teté, mãe do músico Augusto Xacaia, um dos nomes associados à história do grupo.
O roteiro incluiu ainda o emblemático Lote 22, conhecido como o prédio mais alto do bairro e referência arquitetónica local.
Por limitações de tempo, a excursão pelo interior do bairro foi parcialmente reduzida, levando a caravana a percorrer algumas vias importantes como a Rua do Felício e a Rua da Samba, antes de regressar ao ponto de encontro inicial.

Roteiro cultural previsto
Embora nem todos os pontos tenham sido visitados nesta etapa, o roteiro original prevê ainda a passagem por outros locais históricos do bairro:
- Mbondo ya Mbulungo
- Largo dos 11 Bravos da Samba
- Cacimba do Prenda
Cada um destes espaços representa fragmentos importantes da memória social e cultural do bairro, onde se cruzam histórias de músicos, famílias tradicionais e movimentos artísticos que ajudaram a construir a identidade cultural de Luanda.

Comunidade, cultura e comunicação social
O passeio também contou com a presença de diversos profissionais da comunicação social, reforçando o carácter documental da iniciativa.
Entre os presentes estiveram o fotojornalista Luís Damião, do Jornal de Angola, e Daltron Costa, do portal PRESS.digi, que participaram na recolha de imagens e registos destinados à criação de um banco de memória cultural sobre o bairro.
A presença de jornalistas e fotógrafos reforçou o papel da comunicação social na preservação da memória coletiva e na divulgação de iniciativas que valorizam o património cultural das comunidades.

O anúncio que animou a comunidade
Já na recta final da atividade, o diretor do projeto, Herberto Xá‑Kimona Agostinho, anunciou que o roteiro turístico-cultural terá continuidade nos próximos meses.
A iniciativa culminará com um concerto inédito dos Jovens do Prenda dentro do próprio bairro, uma proposta que foi recebida com entusiasmo e aplausos pelos participantes.
O anúncio simboliza o regresso simbólico do grupo às suas origens, num gesto que pretende reforçar a ligação entre música, território e comunidade.

Nota editorial – Olhar de Kikalakalu Kiadibya
Para a redação do PRESS.digi, iniciativas como o Tur-Prenda demonstram o enorme potencial que existe na interseção entre cultura, turismo comunitário e preservação da memória histórica.
O bairro Prenda não é apenas um espaço geográfico da cidade de Luanda. É um território simbólico onde nasceram histórias, artistas, movimentos culturais e experiências sociais que ajudaram a moldar a identidade urbana da capital.
Projetos deste género podem transformar-se em verdadeiras plataformas de turismo cultural comunitário, capazes de gerar oportunidades de empreendedorismo, ativismo cultural e produção audiovisual.
Mais do que uma simples visita guiada, o Tur-Prenda revelou-se um exercício de reconhecimento coletivo: um reencontro com as pessoas, os lugares e as narrativas que construíram a história cultural de Angola.
Enquanto ainda temos os “kotas” que viveram essas experiências e podem transmiti-las às novas gerações, torna-se fundamental documentar, registrar e partilhar essas memórias.
Porque é nas comunidades que começa grande parte da história de um povo. E é a partir delas que a cultura continua viva.









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